21/01/2019
Falsa Economia: 'Pente-fino' no INSS ataca direitos dos trabalhadores e gera despesas

'Pente-fino' do governo Bolsonaro deve criar nova onda de processos para reaver direitos cortados indevidamente
(Foto: Victor Soares/Previdência Social)
Se repetir o modelo adotado no governo Temer, o pente-fino nos benefícios do INSS proposto pela equipe econômica do governo Bolsonaro indica que, ao seu final, a investida vai acarretar uma "falsa economia" ao país, devido ao elevado número de ações judiciais pelos segurados para anular o corte arbitrário de benefícios e pensões e reaver direitos cortados indevidamente. O "mal exemplo" do governo anterior, de Michel Temer – e que deve ser repetido agora –, é o pagamento de bônus em dinheiro aos peritos do INSS que identifiquem supostas fraudes.
Segundo o Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), o "pente-fino" do governo Temer, que começou a ser executado em julho de 2016, colaborou para que houvesse uma explosão de ações na Justiça Federal, a ponto de faltar recursos para a realização de perícia médica no sistema judiciário. O risco agora pode ser ainda maior, pois a proposta do ministro da Economia, Paulo Guedes, prevê a revisão de todos os benefícios concedidos. No processo anterior, auxílio-doença e pensão por invalidez foram os alvos do pente-fino.
Para o IBDP, trata-se de uma medida com viés "classista" – pois atende aos interesses dos peritos que querem incrementar seus rendimentos com as bonificações concedidas – e "mercadista", porque passa ao mercado financeiro a falsa sensação de que o governo estaria fazendo esforços para conter o gasto público.
"Para dizer que estão economizando e justificar essa bonificação, os peritos começaram a cancelar uma série de benefícios, de forma injusta e ilegal. Isso gerou um contingenciamento enorme de ações na Justiça, verificado até pelo Tribunal de Contas da União (TCU)", afirma o diretor do IBDP Diego Cherulli, advogado e professor de Direito Previdenciário na Universidade de Brasília (UnB).
Segundo ele, os recursos contra a suspensão ilegal das pensões por invalidez respondem pelo maior número de processos, em termos percentuais, na Justiça Federal, em Brasília, que tem dado ganho de causa para cerca de 80% das ações. Enquanto o perito deve receber R$ 57,50 por perícia extra realizada, cada processo, segundo o TCU, custa aos cofres do Estado cerca de R$ 3.900.
"É mercadismo", diz Cherruli, "porque agrada ao mercado por supostamente diminuir as despesas da Previdência Social. Na verdade, não está. Está diminuindo falsamente. Por isso que digo que o pente-fino do Temer foi um mal exemplo". Segundo ele, os peritos do INSS já ganham o suficiente para fazerem a devida fiscalização dos benefícios, e que o bônus distorce a função e ameaça direitos conquistados.
O diretor do IBDP diz que até mesmo benefícios que haviam sido concedidos na Justiça, que conta com peritos especialistas – diferentemente do INSS – foram cassados pelo pente-fino de Temer, e depois tiveram que ser repostos, causando danos aos cofres públicos e aos beneficiários.
"Vemos com preocupação porque não se vê a fraude como exceção, mas como regra. Essa visão tem que mudar. O direito é a regra. As fraudes são exceções. Que se respeito o direito adquirido e as decisões judiciais", reivindica o diretor. "O IBDP questiona e critica o pente-fino desde o início. Hoje estamos vendo o resultado, que é a elevação da despesa judicial com perícia médica."
Sofrimento e falta de perspectiva
O bancário Wagner tem limitação no movimento dos braços e convive com bastante dor. Apesar disso, a perícia feita pelo banco determinou que ele estava "apto" para o trabalho. "Mas o médico foi bem claro que não tinha como me readaptar e que fariam um acordo comigo no dia seguinte. O Sindicato me orientou a não assinar esse apto e conseguiu a tutela do meu afastamento."
Aurea entrou no ABN Amro em 1996. Foi afastada por LER pouco tempo depois e, assim como Wagner, ficou afastada até 2005 quando também foi aposentada por invalidez. Mas desde maio de 2018, não tem mais nenhum provento. O "pente-fino" tirou sua aposentadoria, o banco a demitiu. "Minha vida está muito complicada."
Com 46 anos, casada e três filhos - de 20 anos, 16 anos e 11 anos - a bancária contava com os cerca de R$ 2.700 do benefício previdenciário para complementar a renda da casa. Aurea depende do plano de saúde, que o banco terá de manter somente por mais seis meses, para tratar a falta de força nos braços e as dores que ainda sente. "Mas hoje, para o INSS dar a aposentadoria, a gente tem de estar morrendo", lamenta.
A bancária ingressou com ação na Justiça, contra o INSS e também contra o banco. "Em outubro de 2018, quando fui chamada para o retorno, minha carta de demissão já estava pronta", conta. "Você se vê sem o benefício e sem o emprego. Isso mexe muito com o psicológico. Estou sem chão, preciso arrumar um emprego, mas por onde vou começar", questiona.
No dia em que foi à empresa soube que outros 100 colegas haviam sido dispensados nas mesmas condições. "Faltava somente um ano e dez meses para minha aposentadoria por tempo de serviço. Meu advogado disse que eu teria estabilidade e não poderia ter sido mandada embora."
Assim, estão pedindo a reintegração ao banco. "Mas claro que não tenho como me reintegrar. Então aguardo a resposta do juiz para que seja mantido um auxílio pago pelo INSS, diante da minha falta de condição física para trabalhar. Não sei o que vai acontecer."
Segundo o Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), o "pente-fino" do governo Temer, que começou a ser executado em julho de 2016, colaborou para que houvesse uma explosão de ações na Justiça Federal, a ponto de faltar recursos para a realização de perícia médica no sistema judiciário. O risco agora pode ser ainda maior, pois a proposta do ministro da Economia, Paulo Guedes, prevê a revisão de todos os benefícios concedidos. No processo anterior, auxílio-doença e pensão por invalidez foram os alvos do pente-fino.
Para o IBDP, trata-se de uma medida com viés "classista" – pois atende aos interesses dos peritos que querem incrementar seus rendimentos com as bonificações concedidas – e "mercadista", porque passa ao mercado financeiro a falsa sensação de que o governo estaria fazendo esforços para conter o gasto público.
"Para dizer que estão economizando e justificar essa bonificação, os peritos começaram a cancelar uma série de benefícios, de forma injusta e ilegal. Isso gerou um contingenciamento enorme de ações na Justiça, verificado até pelo Tribunal de Contas da União (TCU)", afirma o diretor do IBDP Diego Cherulli, advogado e professor de Direito Previdenciário na Universidade de Brasília (UnB).
Segundo ele, os recursos contra a suspensão ilegal das pensões por invalidez respondem pelo maior número de processos, em termos percentuais, na Justiça Federal, em Brasília, que tem dado ganho de causa para cerca de 80% das ações. Enquanto o perito deve receber R$ 57,50 por perícia extra realizada, cada processo, segundo o TCU, custa aos cofres do Estado cerca de R$ 3.900.
"É mercadismo", diz Cherruli, "porque agrada ao mercado por supostamente diminuir as despesas da Previdência Social. Na verdade, não está. Está diminuindo falsamente. Por isso que digo que o pente-fino do Temer foi um mal exemplo". Segundo ele, os peritos do INSS já ganham o suficiente para fazerem a devida fiscalização dos benefícios, e que o bônus distorce a função e ameaça direitos conquistados.
O diretor do IBDP diz que até mesmo benefícios que haviam sido concedidos na Justiça, que conta com peritos especialistas – diferentemente do INSS – foram cassados pelo pente-fino de Temer, e depois tiveram que ser repostos, causando danos aos cofres públicos e aos beneficiários.
"Vemos com preocupação porque não se vê a fraude como exceção, mas como regra. Essa visão tem que mudar. O direito é a regra. As fraudes são exceções. Que se respeito o direito adquirido e as decisões judiciais", reivindica o diretor. "O IBDP questiona e critica o pente-fino desde o início. Hoje estamos vendo o resultado, que é a elevação da despesa judicial com perícia médica."
Sofrimento e falta de perspectiva
O bancário Wagner tem limitação no movimento dos braços e convive com bastante dor. Apesar disso, a perícia feita pelo banco determinou que ele estava "apto" para o trabalho. "Mas o médico foi bem claro que não tinha como me readaptar e que fariam um acordo comigo no dia seguinte. O Sindicato me orientou a não assinar esse apto e conseguiu a tutela do meu afastamento."
Aurea entrou no ABN Amro em 1996. Foi afastada por LER pouco tempo depois e, assim como Wagner, ficou afastada até 2005 quando também foi aposentada por invalidez. Mas desde maio de 2018, não tem mais nenhum provento. O "pente-fino" tirou sua aposentadoria, o banco a demitiu. "Minha vida está muito complicada."
Com 46 anos, casada e três filhos - de 20 anos, 16 anos e 11 anos - a bancária contava com os cerca de R$ 2.700 do benefício previdenciário para complementar a renda da casa. Aurea depende do plano de saúde, que o banco terá de manter somente por mais seis meses, para tratar a falta de força nos braços e as dores que ainda sente. "Mas hoje, para o INSS dar a aposentadoria, a gente tem de estar morrendo", lamenta.
A bancária ingressou com ação na Justiça, contra o INSS e também contra o banco. "Em outubro de 2018, quando fui chamada para o retorno, minha carta de demissão já estava pronta", conta. "Você se vê sem o benefício e sem o emprego. Isso mexe muito com o psicológico. Estou sem chão, preciso arrumar um emprego, mas por onde vou começar", questiona.
No dia em que foi à empresa soube que outros 100 colegas haviam sido dispensados nas mesmas condições. "Faltava somente um ano e dez meses para minha aposentadoria por tempo de serviço. Meu advogado disse que eu teria estabilidade e não poderia ter sido mandada embora."
Assim, estão pedindo a reintegração ao banco. "Mas claro que não tenho como me reintegrar. Então aguardo a resposta do juiz para que seja mantido um auxílio pago pelo INSS, diante da minha falta de condição física para trabalhar. Não sei o que vai acontecer."
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