23/10/2020
Bancos combinam lucros com demissões

Este ano, muitas pequenas e médias empresas demitiram funcionários diante das dificuldades econômicas agravadas pela pandemia que paralisou o país a partir de março. Muitas chegaram a fechar suas portas. Situação muito diferente do setor bancário, que encerrou 2019 com um aumento superior a 30% nos lucros e, mesmo assim, recorreu às demissões para otimizar seus resultados financeiros em 2020. Mesmo com as crises econômicas e sanitárias, os bancos demitiram e descumpriram um acordo de não dispensar seus funcionários durante a pandemia.
Em 2019, os lucros nos bancos bateram recordes. O lucro dos cinco maiores bancos do país somou R$ 108 bilhões no ano passo, uma alta de 30% em 12 meses. O Itaú registrou, em 2019, um lucro de R$ 28,3 bilhões, o Bradesco, R$ 25,8 bilhões e o Santander, R$ 14,5 bilhões. São esses três bancos que agora batem recordes de demissões. Passaram a demitir seus funcionários antes do final do primeiro semestre deste ano, semanas depois de se comprometerem na mesa de negociações com o movimento sindical a não recorrerem à demissão durante a pandemia. Desde janeiro, foram mais de 12 mil demissões.
‘Não perdem nunca’
“Bancos não perdem nunca. Independente do cenário econômico, como os resultados anuais demonstram. A economia pode ir mal que os bancos lucram mais ainda. É importante destacar que os bancos vêm de anos seguidos batendo recordes de lucros e, mesmo assim, fecharam milhares de postos de trabalho e continuam demitindo mesmo na pandemia”, analisa a economista Vivian Machado, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
No ano da pandemia, os lucros caíram, graças a um recurso fiscal dos bancos, que reduz o total dos lucros para aumentar o chamado provisionamento. O provisionamento é o dinheiro de reserva para se proteger em caso de possíveis calotes dos clientes. Os lucros dos cinco maiores bancos apresentaram queda no 1º semestre deste ano, porém seguiram significativamente elevados. O montante chegou a R$ 30 bilhões, uma queda média de 32% em relação a igual período de 2019, mas que ocorreu em boa parte por conta dos reforços nos provisionamentos.
Responsabilidade
Se as crises econômica e sanitária sacudiram de alto a baixo a vida da população, negócios com portas fechadas e desemprego agravam a situação e dificultam uma recuperação econômica. “Nesse momento delicado, os bancos poderiam manter e até ampliar os empregos, ajudando a amenizar esse cenário de desemprego, mas, não o fazem com a desculpa de que os lucros caíram e o cenário tende a piorar. Entretanto, os lucros caíram por que eles utilizaram uma previsão de cenário e reservaram provisões extraordinárias e não porque realmente os seus resultados pioraram”, afirmou a economista do Dieese.
Não por acaso, o slogan da campanha contra as demissões realizada pelo movimento sindical bancário é “Bancos de verdade cumprem com suas responsabilidades”. A campanha é uma forma de se contrapor aos bilhões de reais que estão sendo gastos pelos bancos em campanhas publicitárias para mostrar uma falsa imagem humana dessas instituições, que, em contrapartida, demitem funcionários para aumentarem ainda mais seus lucros.
"Sabemos que uma crise sanitária como a que o mundo está vivendo leva a impactos profundos na economia, e mais do que nunca, os trabalhadores precisam manter seus empregos. O Sindicato, junto às demais entidades representativas, está atuando desde o início da pandemia junto às instituições financeiras, negociando medidas para preservar a saúde e a vida dos trabalhadores do setor e também para preservar seus empregos. Conseguimos que os maiores bancos privados assumissem o compromisso de não demissão. A pandemia, porém, não acabou, mas essas mesmas instituições passaram a demitir sem dó nem piedade, rompendo o acordado com a categoria e ignorando sua responsabilidade social", denuncia o presidente do Sindicato dos Bancários de Catanduva e Região, Roberto Vicentim.
Para denunciar a situação à sociedade, o Sindicato está participando de campanhas nas redes sociais e realizando atividades nas ruas, mostrando a postura desumana dos bancos que, nas suas campanhas publicitárias vendem a imagem de bonzinhos, mas na vida real estão demitindo pais e mães de família, mesmo com lucros estratosféricos, que não justificam essa postura. "É fundamental que todos participem das mobilizações, pressionando pelo emprego e pelo fim das dispensas. O que os bancos estão fazendo é uma falta de respeito com a sociedade brasileira e uma crueldade sem tamanho com seus trabalhadores”, ressalta Vicentim.
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