Spread menor e inclusão social são uma necessidade do país, diz Contraf-CUT
Apesar de fornecerem pouco crédito em comparação a outros países, os bancos que operam no Brasil tiveram lucro líquido de mais de R$ 43 bilhões no ano passado - a maior rentabilidade de todo o sistema financeiro global. Esse lucro fácil deve-se, sobretudo, ao mais alto spread e a mais elevada taxa de juros do mundo, somados à exploração dos bancários e às tarifas escorchantes que cobram dos clientes e usuários.
Segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo no último dia 12, "de dezembro para janeiro, a taxa aumentou de 24,1% para 25,6% para as empresas, e de 28,8% para 31,5%, para as pessoas físicas". Segundo entrevista com o ex-presidente da Febraban, Fábio Barbosa, desta vez a alta foi motivada por uma atitude deliberada do governo, que adotou medidas para encarecer o crédito, esfriar o consumo e assim se proteger contra uma retomada da inflação.
Barbosa, que passou no dia 17 a presidência da Febraban para o economista Murilo Portugal, alega que "é preciso deixar claro que spread não é a margem de lucro do banco. Barbosa explica que "é a diferença entre o custo de captação do dinheiro e o custo do empréstimo. Aí dentro cabem várias coisas: compulsório, impostos, inadimplência e os custos da organização. O que sobra para o banco é só um pedaço do spread". Segundo ele, "do spread bruto, 27% é a margem de lucro dos bancos. Os outros 73% são custos, dos quais 27% a 28% são impostos".
Na avaliação da Contraf-CUT, o spread é muito elevado e engorda os lucros astronômicos das instituições. Nenhum país do mundo pratica taxas semelhantes.
Mas os bancos não estão satisfeitos. Estão empregando todo o seu poder de pressão, o que inclui o coro uníssono dos colunistas econômicos da grande mídia, para bombardear as tímidas tentativas do Banco Central de fugir da ortodoxia e buscar instrumentos alternativos, além da elevação dos juros, para conter a inflação.
Na ata que divulgou na semana passada, o Copom (Comitê de Política Monetária) avista um cenário de desaceleração inflacionária a partir do segundo semestre, o que lhe permite "a eventual introdução de ações macroprudenciais" em vez de prosseguir com o aumento da taxa Selic. Os banqueiros não gostaram dessa sinalização do Copom, que para a Contraf-CUT é tímida demais para manter o Brasil na rota do crescimento, e querem que o Banco Central (BC) continue a aumentar a taxa Selic indefinidamente.
Chantagens do mercado financeiro
Para o presidente da Contraf-CUT, Carlos Cordeiro, "o BC não pode continuar cedendo às chantagens do mercado financeiro, acostumado a ganhar bilhões de reais com as altas de juros, em prejuízo do direcionamento do crédito para os setores da economia geradores de emprego e renda".
A chantagem que o mercado financeiro faz com o governo e com a sociedade não tem limites. Na entrevista, Fábio Barbosa concebeu essa pérola que entrará para os anais do pensamento econômico universal: "A sociedade precisa escolher entre o desejo de bancarização e o desejo de taxas menores de juros".
Ou seja, segundo ele, não é possível aumentar a oferta de crédito para o consumo das famílias e para as empresas investirem e, ao mesmo tempo, baixar o spread. O axioma de Barbosa é que emprestar aos novos atores econômicos que estão emergindo graças ao crescimento da economia representa um risco grande de inadimplência - e, portanto, é preciso aumentar o spread.
Para o presidente da Contraf-CUT, "a sociedade brasileira não pode mais tolerar esse tipo de chantagem dos bancos e seus porta-vozes. O spread e os juros altos são hoje os principais fatores de transferência de renda da sociedade, especialmente dos trabalhadores, para o sistema financeiro". Conforme Carlos Cordeiro, "é uma visão de um setor que está acostumado apenas a expropriar a renda nacional, sem oferecer contrapartida ao desenvolvimento econômico e social do país".
O dirigente da Contraf-CUT reitera que "é preciso combater essa visão com a ampliação do Conselho Monetário Nacional, de forma a contemplar a participação de todos os atores econômicos, para que o Banco Central, além das metas de inflação, possa também fixar metas sociais, como o aumento do emprego e da renda dos trabalhadores e a redução das desigualdades sociais do país".
A final da entrevista, Fábio Barbosa disse que transparência foi a marca que deixa na Febraban e lembra que promoveu um debate com o movimento sindical sobre o sistema financeiro. "Há menos de um ano, por exemplo, trouxemos o pessoal do sindicato para discutir a dinâmica de resultados dos bancos. E o pessoal na época ficou meio preocupado com que o sindicato ia fazer com essas informações. Quanto mais eles souberem sobre os bancos, melhor. Adiantou alguma coisa? Não sei. Mas acho que todos ganhamos".
Carlos Cordeiro avalia que é preciso ampliar, e muito, o debate sobre o papel do sistema financeiro, a fim de garantir maior transparência para os trabalhadores e a sociedade. "Os primeiros passos já foram dados, mas ainda falta muito para que o sistema financeiro coloque as pessoas em primeiro lugar", conclui.
Fonte: Contraf-CUT com O Estado de S.Paulo
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