09/06/2015

As reais condições de trabalho nos bancos: sobrecarga, assédio, metas e ameaças

Ao se agachar para abastecer um caixa eletrônico, uma bancária do Itaú em Tocantins sentiu um sangramento escorrer pelas pernas. “Colegas me ajudaram e recolhemos uma substância que caiu no chão, que ficou guardada em uma embalagem de guardanapo em minha bolsa”, disse ela à BBC Brasil. “Logo depois, liguei para meu chefe em Belém e expliquei o que tinha acontecido, mas ele disse que não poderia me afastar, pois não tinha ninguém para me substituir.”

O que caiu no chão era um feto com um mês e meio de gestação. A funcionária continuou trabalhando por mais três horas, até fechar a tesouraria, pela qual era responsável. Ela não sabia que estava grávida e por isso não pensou que pudesse ter abortado.

“Foi um choque. Psicologicamente foi bem pior que fisicamente. Achei muito constrangedor ficar naquela situação, trabalhando ensanguentada depois da gravidade do que havia ocorrido”, afirma.

“O fato de ela ter continuado a trabalhar, colocando o interesse do banco à frente do seu, já mostra o nível de seu abalo emocional provocado pelo assédio moral que sofria”, diz a procuradora do Ministério Público do Trabalho do Tocantins Mayla Alberti, responsável pelo caso.

Pouco retorno à sociedade

Nos últimos dois anos, as três maiores instituições privadas que atuam no Brasil – Itaú, Bradesco e Santander – cortaram 15 mil postos de trabalho. No mesmo período viram seus lucros aumentar substancialmente de R$ 7,9 bi para R$ 11,7 bi, aumento de 46,9%.

Já o que os bancos arrecadam com tarifas cobradas dos clientes saltou de R$ 97,1 bi em 2013 para R$ 107,5 bi em 2014, variação de 10,8%. Esse número representa 128% dos gastos com as folhas salariais. Ou seja, somente com o valor das tarifas pagam todos os funcionários e ainda sobra muito dinheiro.  

“Esses dados atestam que os bancos tomam muito da sociedade, cobrando tarifas e juros exorbitantes, e devolvem muito pouco, seja na falta de qualidade de vida para seus trabalhadores, seja na criação de empregos ou ainda em serviços melhores à população”, avalia Ivone Silva, secretária-geral do Sindicato dos Bancários de São Paulo.

“É preciso que todos tenham consciência dessa realidade e se envolvam na luta para mudar esse quadro de desrespeito no qual o aborto da funcionária do Itaú infelizmente representa um trágico desfecho para a pressão e o assédio moral que os bancos praticam contra todos nós”, completa.

No mundo da tecnologia

Visões bem diferentes sobre o mesmo tema. No seminário realizado pela federação dos bancos, na segunda 8, mais uma vez ficou claro que as tendências das novas tecnologias têm papel e consequências distintos para empregados e empregadores.

Os debatedores – um pela Febraban e outro representando os bancários – trataram de mundos praticamente opostos. De um lado, possibilidades e avanços. De outro, a dura realidade dos locais de trabalho e a reclamação dos clientes, mostrando que a tecnologia não é tão benéfica, nem para trabalhadores nem usuários.

André Accorsi, pesquisador do Centro 28 de Agosto, do Sindicato, comprovou – com dados do BC entre 2009 e 2014 – que os grandes investimentos em tecnologia não têm se traduzido em satisfação dos clientes, tampouco em melhorias nas condições de trabalho dos bancários. Itaú, Santander, Bradesco e Safra estão entre os que mais investem em tecnologia e igualmente entre os mais reclamados.

Para o pesquisador, também é preciso discutir de que maneira se dá a aplicação dessas inovações. “Fala-se em tecnologia para diminuir diferenças, mas em 1994 a diferença salarial entre homens e mulheres era de 21% e hoje é de 24%. A tecnologia não diminui essa diferença e muitas outras”


Fonte: Seeb SP, com informações da BBC Brasil

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