06/05/2026

Audiência no Senado vai debater escala 6x1 como forma de violência estrutural contra as mulheres

Audiência no Senado vai debater escala 6x1 como forma de violência estrutural contra as mulheres
A Comissão Permanente Mista de Combate à Violência contra a Mulher (CMCVM) realiza, no dia 6 de maio, às 14h30, no Senado Federal, audiência pública para debater a escala 6x1 e a jornada exaustiva como formas de violência contra as mulheres.

A iniciativa é da deputada federal Luizianne Lins (Rede/CE) e busca inserir o debate sobre jornada de trabalho no campo das políticas de enfrentamento à violência de gênero.

Criada por resolução do Congresso Nacional, a Comissão tem entre suas atribuições diagnosticar falhas nas políticas públicas, propor ações e promover audiências públicas sobre violência contra as mulheres.

Escala 6x1 como violência estrutural

Na justificativa do requerimento, Luizianne Lins afirma que a organização do trabalho precisa ser analisada sob a ótica de gênero, pois a sobrecarga recai de forma desigual sobre as mulheres. “A jornada exaustiva não é apenas uma questão laboral, mas uma dimensão da violência estrutural e econômica que atinge desproporcionalmente as mulheres brasileiras”, diz a deputada.

O documento aponta que mulheres que trabalham em jornadas formais de 40 a 44 horas semanais ainda dedicam, em média, mais de 16 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerados.

Quando submetidas à escala 6x1, essa realidade se agrava:

“Com apenas um dia de folga, frequentemente utilizado para tarefas domésticas acumuladas, a mulher é privada do direito ao descanso, ao lazer e ao autocuidado”.

A soma das jornadas pode ultrapassar 67 horas semanais, especialmente entre mulheres negras, o que configura um quadro de exaustão física e mental que deve ser reconhecido como violência.

Violência contra as mulheres segue elevada no país

O debate ocorre em um cenário preocupante. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher – DataSenado 2025 mostra que:

•    27% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar ao longo da vida;
•    Cerca de 23,6 milhões de mulheres já passaram por esse tipo de violência;
•    A percepção de aumento da violência permanece alta, com índices superiores a 70% nos últimos anos.
A pesquisa, considerada a maior série histórica sobre o tema no Brasil, entrevistou 21.641 mulheres em todo o país em 2025.

Outro dado relevante é o impacto direto da violência na vida das mulheres:

•    69% tiveram a rotina diária afetada;
•    68% tiveram impacto no convívio social;
•    46% relataram prejuízo na vida profissional.

Além disso, a maioria das agressões ocorre no âmbito das relações íntimas:

•    70% dos casos envolvem parceiros ou ex-parceiros.

Para especialistas e parlamentares, esse conjunto de dados reforça que a violência contra a mulher está profundamente ligada às desigualdades estruturais, incluindo a forma como o trabalho é organizado.

Organização do trabalho também é violência

A presidenta da Contraf-CUT e vice-presidenta da CUT Brasil, Juvandia Moreira, destaca que a categoria bancária já avançou no enfrentamento à violência de gênero, mas que o debate precisa ser ampliado.

“Em 2020, garantimos na Convenção Coletiva de Trabalho uma cláusula de prevenção à violência doméstica, que obriga os bancos a oferecer canais de atendimento e assegura que nenhuma trabalhadora perca renda ou função ao buscar proteção. Foi uma conquista histórica”, diz Juvandia.

Ela ressalta, porém, que a violência também se manifesta no cotidiano do trabalho. “Jornadas exaustivas, metas abusivas e falta de tempo ampliam a vulnerabilidade das mulheres. A luta por redução da jornada é também uma luta por dignidade, saúde e proteção.”

Pressão por mudanças no Congresso

O presidente do Sindicato dos Bancários de Catanduva e região, Roberto Vicentim, destaca que a audiência pública acontece em um momento fundamental para o avanço das pautas trabalhistas no país. “Esse debate é essencial porque une duas questões urgentes: a qualidade das condições de trabalho e a proteção às mulheres trabalhadoras. Cabe agora ao Congresso transformar essa discussão em medidas efetivas”, afirmou.

Para Vicentim, a luta pelo fim da escala 6x1 ganha cada vez mais força em todo o Brasil. “A pressão da sociedade está crescendo e isso mostra que a população quer mudanças. Precisamos avançar para garantir jornadas mais dignas e humanas para os trabalhadores.”

Impacto direto na vida das trabalhadoras

Para a secretária da Mulher da Contraf-CUT, Fernanda Lopes, a discussão evidencia uma realidade muitas vezes invisibilizada. “Quando falamos de jornada exaustiva, estamos falando de saúde mental, autonomia e capacidade de reação diante da violência. A falta de tempo prende as mulheres em ciclos de sobrecarga e vulnerabilidade”, observou.

Ela reforça que a desigualdade na divisão do trabalho doméstico é um ponto central no debate. “Sem mudanças na jornada e sem políticas públicas, continuaremos reproduzindo um modelo que adoece e limita a vida das mulheres.”
Serviço

Audiência Pública – Escala 6x1 e violência contra as mulheres
6 de maio, a partir das 14h30
Senado Federal – CMCVM

 
Fonte: Contraf-CUT, com edição de Seeb Catanduva

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