08/12/2023

Itaú: banco ‘feito de futuro’ demite quem ficou doente de tanto trabalhar

Doenças como depressão, ansiedade e burnout foram responsáveis por 82,72% do total de afastamentos dos bancários do Itaú. Todas essas enfermidades são relacionadas ao trabalho. Em 2022, esse número tinha sido de 40%.

Além dos números absurdos de adoecidos, o Itaú vem adotando descaradamente uma prática discriminatória contra os trabalhadores que adoecem e se afastam do trabalho. O banco desrespeita e demite, sem nenhum pudor ético e humano, bancários e bancárias que, após apresentarem um atestado, retornam ao trabalho, sem estabilidade reconhecida pelo INSS.

O movimento sindical recebeu casos de bancários que pegaram atestado de 15 dias de afastamento e foram demitidos quando retornaram ao trabalho. Também há casos de pessoas que foram demitidas ao retornarem ao banco após o INSS não reconhecer o acidente de trabalho e, ainda, casos nos quais as pessoas pediram para trabalhar em home office para não se afastarem por mais tempo, e também foram demitidas ao retornarem ao trabalho.

"Os bancários sofrem com a sobrecarga de trabalho causada pela carência de funcionários nas agências, o que aumenta o stress e as doenças profissionais, além de diminuir a qualidade do atendimento aos clientes. Para piorar, os trabalhadores ainda têm que cumprir as metas absurdas, determinadas pela direção do banco, sob ameaças de demissão e em detrimento da saúde desses trabalhadores. Uma situação que precisa urgentemente ser revista pela direção do banco", ressaltou o diretor do Sindicato dos Bancários de Catanduva e região, Ricardo Jorge Nassar Júnior.

Sindicato denuncia realidade de demissões, assédio moral e adoecimentos no Itaú
 
‘Minha sensação é que eu sou um lixo’

Em matéria recente divulgada pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, uma bancária relata que obteve um atestado médico de 15 dias e pediu para ficar este período em home office, com pedido médico recomendando o trabalho remoto. Isto porque ela não quis ficar afastada por mais de 15 dias, justamente para não ter de entrar no INSS. Com essa decisão, ela exerceria suas funções plenamente. A sua gestora, porém, solicitou que ela retornasse antes dos 15 dias para o trabalho presencial, sob a alegação de que precisavam da “energia” dela na equipe. Ao se apresentar presencialmente, a bancária trabalhou até o final do expediente, quando foi demitida.

“Estava passando por processo seletivo para Gerente-Geral, ansiosa com meta, muita coisa na minha cabeça, muita informação. Entrei em depressão profunda, tive convulsão, fui no neuropsiquiatra, troquei os remédios, só que o médico queria me afastar pelo INSS. Pedi para não me afastar, então ele me deixou em home office por 15 dias. O afastamento acabaria na quinta-feira (7), mas minha chefe me ligou dizendo ‘preciso de você, entendo que está em home, mas a galera gosta da sua energia’. Cheguei na agência, trabalhei até 15h30, quando minha chefe, que sempre foi minha parceira, chegou chorando e me demitiu”, relatou a trabalhadora.

“Eu estou muito mal. A minha sensação é que eu sou um lixo, que eu não sou nada. Sempre fui ponta firme, braço forte, estava pronta para ser GG, sempre de prontidão, com pontuação acima de 1300. Estou sentindo que fui abandonada pelo amor da minha vida. Eu fico até emocionada, porque eu era apaixonada pelo que eu fazia. Você põe todas as expectativas naquilo, se mata de trabalhar”, desabafou a bancária.

RH Licenças: desrespeitos e desorganização

Além da discriminação e desrespeitos ao trabalhador que ficou doente por causa do próprio trabalho no banco, o setor de RH Licenças do Itaú não orienta corretamente os trabalhadores, e não fornece respostas rápidas para as consultas dos bancários que pedem orientações e encaminhamentos após aberto chamado no portal do banco. Com isso, os chamados se acumulam, sem retorno.

Outro problema gravíssimo do setor resulta em diversos casos de perda de prazo para marcação da perícia. O banco nem marca a perícia e nem orienta os bancários para que o façam.

Isso gera um enorme transtorno e perdas financeiras para o trabalhador, que nesses casos, só vai ter reconhecido o direito ao benefício a partir da data da marcação, e não a partir do 16º dia do afastamento, que seria o correto se o prazo de agendamento tivesse sido respeitado. Nesses casos, muitas vezes o INSS vai negar o beneficio.

Desconto no salário de valores antecipados

Outra questão: o banco já desconta valores antecipados em casos em que a pessoa já passou em perícia, mas ainda aguarda o resultado. Ou seja, o empregado entra em um limbo onde fica sem salário, sem benefício do INSS e nem pode voltar a trabalhar.

Um exemplo disso é de uma bancária que não quis a antecipação salarial e o banco mesmo assim fez a antecipação, sem ela pedir ou assinar. O banco perdeu o prazo da perícia e entregou a Declaração do Último Dia Trabalhado (DUT) com informações erradas.

Em face disto, o INSS pediu outro documento, em acerto pós-perícia. O banco, contudo, levou um mês para emitir nova DUT, gerando demora no resultado da perícia da bancária, mas já cobrou a antecipação que ela não tinha pedido. Essa bancária teve concedido o benefício apenas por oito dias, pois o banco tinha perdido o prazo.

Itaú: feito de futuro?

A desorganização no setor de RH Licenças do Itaú é tanta, que até mesmo o movimento sindical o setor demora para responder.

Representantes dos trabalhadores questionam onde está o Programa de Retorno ao Trabalho e onde estão a prevenção e o cuidado e atenção às pessoas, que fazem parte dos pilares do programa de saúde mental do banco, o ‘Saúde e Bem Estar’? 

"Cobramos que os programas não fiquem apenas nas apresentações e se tornem uma realidade na vida dos trabalhadores, diminuindo o número de adoecimentos e melhorando a qualidade de vida no trabalho", destacou Nassar.

"Em evento recente para apresentar mais uma de suas famosas publicidades de fim de ano, o Itaú se vendeu como banco “humano” e do “futuro”. Mas, o que vemos nas agências, os depoimentos que recebemos diariamente dos funcionários e os casos expostos na mídia comprovam que a realidade é muito diferente. Os trabalhadores estão sendo massacrados e ficando doentes por causa das metas abusivas e, ainda, são descartados como nada, depois de anos de dedicação à instituição, porque adoeceram em decorrência da exaustão laboral. Cobramos do banco responsabilidade social e respeito com seus funcionários também na vida real, promovendo um ambiente de trabalho realmente saudável e humano", finalizou o diretor do Sindicato.
Fonte: Seeb SP, com edição de Seeb Catanduva

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