09/12/2020
Empregados sobre reestruturação: "Não tivemos tempo de pegar nossos pertences"
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De uma hora para outra, prédios fechados e trabalhadores proibidos de entrar. Foi assim que muitos empregados iniciaram a semana em que a Caixa resolveu não renovar o aluguel ou vender mais de 170 imóveis. "Não tivemos tempo de pegar nossos pertences", contou um empregado que trabalha em uma das gerências executivas de Governo (Gigov) atingidos pela reestruturação.
Há 15 anos na Caixa, L.F. (nome fictício), que preferiu não se identificar, disse que foi uma grande tensão quando descobriu que não poderia entrar no prédio em que trabalhava. "Como assim eu não posso mais nem adentrar, nem para retirar meus pertences. Disseram que ninguém mais poderia circular no prédio. Eu nunca vi isso acontecer em unidade nenhuma na Caixa", contou. L.F. Ele lembrou ainda que o imóvel em que estava alocado foi recém contratado em setembro.
Os empregados atingidos pela reestruturação foram colocados em home office pela direção da Caixa. Com a mudança, eles enfrentam também problemas de conexão. "Nós temos que dar conta do serviço, de metas, fazer tudo de casa sem suporte, porque nada funciona. Não temos como baixar os documentos na internet, porque a Caixa não permite e temos que ficar burlando o sistema. Tudo isso para atender a Caixa e alcançar metas", desabafou.
A falta de informação é grande. Apenas os boatos chegam até os empregados. Há notícias que algumas áreas irão para os mezaninos das agências, outras dão conta de que Gihab e Gigov vão acabar. "É uma insegurança que eles passam para a gente. A Caixa transmite essa insegurança no meio de uma pandemia. Todo que chega é informalmente e assim, não tem discussão, não tem negociação e não tem conversa", ressaltou.
L.F. acredita que essa movimentação da Caixa é para que os empregados façam a adesão ao PDV. O mesmo pensamento é da empregada V. A., que está há 16 anos na Caixa. Segundo ela, a direção do banco está criando um clima de pânico entre os trabalhadores.
J.S. (nome fictício), que também preferiu não se identificar, trabalha na Gilog, a gerência de logística, uma das áreas responsáveis por fazer essas mudanças. “Temos a ordem de desocupar prédios até 20 de dezembro e veio do nada, sem planejamento. Temos ordem de desocupar o depósito até 31 de dezembro. O material precisa ser leiloado. Está enlouquecedor”, afirmou.
Segundo a trabalhadora, parece que tudo está sendo feito com muito sigilo. “Não sabemos se vamos ter vaga para ir para São Paulo, se todos estão sem função, sem vaga, ao Deus dará. Ninguém consegue falar nada com a gente”, desabafou. Assim como L.F., ela também afirmou que não está havendo nenhuma conversa entre os empregados. “A pessoa que está determinando que isso seja feito não está aceitando nenhum tipo de contestação, não está aberta a discussão. A ordem é entregar prédios”.
Entidades cobram negociação e mais planejamento
A Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), o Sindicato dos Bancários de Catanduva e região e demais entidades que representam a categoria questionaram a falta de planejamento da direção do banco. Sem aviso prévio e sem negociação com os trabalhadores, o banco resolveu fazer as mudanças com o intuito de fortalecer a governança, economicidade e melhor gestão dos recursos públicos. “Até o momento não tivemos nenhuma informação oficial do que está acontecendo. E o que estamos vendo é uma medida da Caixa que está gerando pânico e insegurança entre os trabalhadores”, afirmou o presidente da Fenae, Sergio Takemoto.
“No nosso Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) temos uma cláusula que obriga a Caixa, no caso de uma reestruturação, a dialogar com os empregados, trazer os aspectos da reestruturação para a mesa de negociação. Cobramos da Caixa que respeite o acordo assinado por ela, a carreira dos trabalhadores e esclareça o que pretende fazer", reforçou o diretor do Sindicato, Antônio Júlio Gonçalves Neto.
A coordenadora do Comitê Nacional em Defesa das Empresas Públicas e representante dos empregados no Conselho de Administração da Caixa, Rita Serrano, também destacou a falta de negociação, organização e planejamento, além de não levar em consideração a realidade dos empregados. “O primeiro problema é: você não pode mudar a vida das pessoas sem que isso seja negociado, para você diminuir os conflitos e insatisfações. Retirar as pessoas do seu local de trabalho e locar nas agências também tem que se precedido de um planejamento. Nós estamos em uma pandemia e você locar mais pessoas para trabalhar juntas é muito ruim e aumento o risco de contágio”, afirmou.
A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), assessorada pela CEE/Caixa e representando o Sindicato, questionou o banco quanto ao deslocamento dos trabalhadores e a falta de negociação da direção da Caixa com os trabalhadores. “É lamentável ver a direção da Caixa fazendo mudanças de forma brusca, sem aviso prévio e nem diálogo com os empregados nem com seus representantes sindicais. A insegurança está instalada nos locais de trabalho, visto que os funcionários são pegos de surpresa, sem saber como ficam as alterações na vida funcional e em suas remunerações”, afirmou a presidente da Contraf-CUT, Juvandia Moreira.
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