22/08/2019
Propaganda enganosa: Crédito imobiliário pelo IPCA anunciado pela CEF pode ser cilada

A Caixa anunciou, na terça-feira (20), uma nova linha de crédito imobiliário atualizada pelo IPCA, índice oficial da inflação, ao invés de pela TR (como são atualmente os financiamentos para compra de imóveis). Como o IPCA está baixo (hoje em 3,22% e abaixo de 5% desde 2017), o governo propagandeou taxas de juros bem menores (de 2,95% a 4,95%) do que as atuais (8,50% a 9,75% mais TR), mas especialistas advertem que a mudança pode ser uma cilada.
O economista Sérgio Mendonça, ouvido pelo site Reconta aí, pede cautela: “Muitas vezes o discurso é maravilhoso, mas a realidade é outra. E existirá um risco de que a inflação suba no futuro e a taxa variável suba junto com uma inflação mais alta. Aí o risco de inadimplência aumentará, pois os tomadores de empréstimos terão maior dificuldade de saldar esses empréstimos”.
Caminho é fortalecer bancos públicos e baixar juros
Para a coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Ivone Silva, a medida divulgada pelo governo mais parece uma propaganda enganosa: “Foi anunciada num momento em que o IPCA está muito baixo, portanto, pode dar a impressão de que será uma enorme redução de juros. Mas se avaliarmos o histórico da inflação no país, veremos que esse é um momento atípico. Além do mais, o IPCA é um índice que depende de diversos fatores e por isso mesmo é muito volátil. Pode a qualquer momento subir e prejudicar quem optou por esse tipo de empréstimo.”
Segundo o governo, os financiamentos por TR (Taxa Referencial) continuarão a ser oferecidos, mas quem optar pelo crédito imobiliário corrigido mensalmente pela inflação não poderá mudar de linha, e esses financiamentos terão prazo de até 30 anos. “Imagina você financiar seu imóvel em 30 anos. Quanto o IPCA poderá variar até lá?”, questiona a dirigente.
“Além do mais, a inflação está baixa porque a população não está consumindo, porque o poder aquisitivo do brasileiro está caindo, porque desemprego atinge 13 milhões de pessoas, ou 27,6 milhões se levarmos em conta os subutilizados [que trabalham menos do que poderiam] e os desalentados [que desistiram de procurar emprego]. Então, ao lançar uma linha de financiamento imobiliário atrelada à inflação como se fosse um trunfo, o governo está apostando que essa situação perversa vai se perdurar por muito tempo”, acrescenta Ivone.
O jornal Folha de S.Paulo publicou simulação que mostra que, mesmo com juros de 2,95% a 4,95%, se essa linha de crédito fosse ofertada 15 anos atrás aos consumidores, eles teriam pagado mais do que pagariam com uma linha tradicional, com taxa de 8,5% mais TR: “um consumidor que tivesse contratado um financiamento de R$ 400 mil teria pago ao fim de 15 anos R$ 767 mil. No sistema atual, no mesmo prazo o custo seria de R$ 737 mil”.
Ou seja, ele teria desembolsado R$ 30 mil a mais. Mas isso se a taxa de juros adotada fosse de 3%. Se fosse de 5%, segundo o jornal, o prejuízo poderia ser maior.
O caminho é fortalecer os bancos públicos para que eles de fato pratiquem políticas que favoreçam a população. Ao invés de lançar políticas que não irão de fato reduzir os juros, o governo deveria fortalecer os bancos públicos. Mas está seguindo o caminho inverso, reduzindo número de funcionários, de agências, aumentando as taxas de juros, fatiando a Caixa e BB para a venda e extinguindo programas sociais.
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