23/03/2026

Brasil perde 37% das agências bancárias em 10 anos e vê exclusão financeira avançar

“O número de agências bancárias caiu 37% em dez anos no Brasil, indo para pouco mais de 14 mil, em meio ao avanço da tecnologia para realizar transações e à decisão dos bancos de cortar custos, muitas vezes deixando uma parcela da população sem atendimento”.

Desta forma, a jornalista Júlia Moura inicia a matéria “Brasil perde 37% das agências bancárias em dez anos”, destaque de capa do jornal Folha de S.Paulo desta segunda-feira, 23 de março.

Desde 2015, de acordo com cálculos do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), mencionados na matéria, 638 municípios brasileiros ficaram sem agências bancárias, o que desassistiu 6,9 milhões de pessoas, cerca de 9% da população brasileira. São 2.649 municípios sem agências, o equivalente a 48% do total.

Sindicato na luta contra o fechamento de agências

Há tempos o Sindicato dos Bancários de Catanduva e região vem denunciando esse movimento, seja em matérias em seus canais de comunicação, nas redes sociais, em atividades públicas e mobilizações coordenadas nacionalmente.

“O encerramento de agências bancárias vem sendo alvo de luta do Sindicato há muito tempo. Ainda que essa política já faça parte da atuação dos bancos há anos, o ritmo acelerado com que ocorre atualmente acende um alerta. Nesse contexto, é essencial que a mídia passe a abordar a questão de maneira mais aprofundada, evidenciando seus impactos sociais e indo além da simples interpretação como estratégia de negócios”, destaca o presidente do Sindicato, Roberto Vicentim.

O fechamento de agências, além de contribuir para a drástica redução no número de postos de trabalho bancário e sobrecarregar trabalhadores que seguem nas unidades abertas – prejudica a população e o comércio local, principalmente em regiões periféricas e pequenos municípios. Entre 2015 e 2024, a categoria bancária saiu de 504.345 mil trabalhadores para 424.021 mil, redução de 80.324 empregos.

“O fechamento de agências prejudica todos. Postos de trabalho são extintos; bancários de outras unidades precisam absorver a demanda das agências fechadas; a população, principalmente idosos, deixam de contar com o atendimento presencial; o comércio e a economia local como um todo são afetados negativamente; e os clientes ficam com o atendimento precarizado, inclusive mais suscetíveis a fraudes e golpes nos canais digitais”, reforça a coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Neiva Ribeiro.

Digitalização x Atendimento presencial

A Febraban (federação dos bancos), afirmou à Folha de S.Paulo que os bancos estão adequando sua estrutura à nova realidade do setor, no qual o consumidor prefere os canais digitais.

Entretanto - mesmo que 75% das operações bancárias em 2024 tenham ocorrido pelo celular – a própria reportagem enfatiza que muitas transações ainda são feitas presencialmente. Em 2024, 27% dos pagamentos de contas e 14% das contratações de investimento foram realizadas nos canais físicos, aponta levantamento da Deloitte em parceria com a Febraban.

Na contramão da alegada preferência pelos canais digitais, existem ainda serviços cujo volume nas agências aumentou na comparação entre 2024 e 2025. A contratação de crédito subiu 11% e a de seguros cresceu 6%.

“Além da questão dos idosos e pessoas que não possuem uma boa conexão com a internet, o atendimento presencial muitas vezes é a opção escolhida por um cliente para a contratação de um serviço de maior complexidade ou que envolva valores mais elevados. Outro ponto é quando o cliente é vítima de um golpe, ou mesmo quando não está satisfeito com um serviço contratado. Quando algo não vai bem, quando é necessária uma explicação clara, ou quando o serviço contratado é de alto valor, a confiança do olho no olho, uma relação próxima entre bancário e cliente, é insubstituível”, enfatiza Neiva Ribeiro.

“Glamourização” do atendimento presencial

A matéria publicada pela Folha de S.Paulo, para além da redução no número de agências como forma de cortar custos, cita que “os bancos têm preferido abrir pontos de atendimento mais especializados, para atrair a parcela da população que tem investimentos e faz negócios rentáveis”.

“A própria estratégia dos bancos de abrirem unidades focadas em clientes de alta renda, inseridos no mercado de investimentos, mostra que o atendimento presencial ainda é importante, ainda é desejado por pelos clientes. Porém, os bancos - que operam como concessões públicas e deveriam garantir atendimento de qualidade para toda a população – estão optando por maximizar os lucros fechando agências convencionais e expulsando das unidades abertas os clientes que não são de alta renda”, critica a coordenadora do Comando Nacional.

Fintechs e cooperativas ocupam o “vácuo” dos bancos

Enquanto os bancos fecham agências e cortam postos de trabalho, cooperativas de crédito e fintechs ganham espaço. Entre 2015 e 2025, o número de pontos de atendimento de cooperativas mais que dobrou, saltando de 4.470 para 9.822, alta de 120%. O número de funcionários passou de 54.995 em 2015 para 122.196 em 2024, uma variação de 122,4%.

Já em relação às fintechs, o número de empresas autorizadas pelo Banco Central que operam neste modelo saltou de uma em 2016 para 330 em 2025. Para além das autorizadas formalmente pelo BC, segundo levantamento da A&S Partners, o número total de fintechs no Brasil saltou 77% desde 2020, alcançando mais de duas mil empresas no setor.

“Enquanto os bancos seguem fechando agências e eliminando postos de trabalho, cooperativas e fintechs que, na prática, realizam atividades típicas do setor bancário ampliam sua presença e absorvem essa mão de obra. Nesse movimento, muitos trabalhadores deixam de ser reconhecidos como bancários, passando a receber menos e a ter menos direitos. Diante dessa realidade, defendemos a criação de uma regulação no sistema financeiro que obrigue essas empresas a cumprir as mesmas normas impostas aos bancos, especialmente no âmbito trabalhista. É uma questão de justiça garantir que esses profissionais tenham o devido reconhecimento, com direitos e remuneração compatíveis com as funções que exercem”, ressalta Vicentim.

“Por sua vez, os bancos devem cumprir sua função social, abandonando esta política de fechamento de agências e corte de empregos, de forma que seja assegurado atendimento de qualidade para a população e condições de trabalho adequadas para os bancários”, acrescenta Neiva Ribeiro.
Fonte: Seeb/SP, com edição de Seeb Catanduva

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