01/06/2022
Apesar dos lucros, grandes bancos fecham mil agências, causam desemprego e filas

Itaú Unibanco, Bradesco e Santander, os três maiores bancos privados do país, lucraram R$ 18,1 bilhões no primeiro trimestre de 2022. Somados aos R$ 6,6 bilhões do Banco do Brasil – que é público, mas de capital aberto –, vai a R$ 24,7 bilhões o lucro dos principais bancos do país no período.
Paralelamente, as quatro instituições financeiras privadas fecharam 1.007 agências entre março de 2021 e março deste ano, apostando no atendimento virtual, principalmente pelo celular e o resultado é a piora do atendimento aos clientes nas agências.
“Só durante a pandemia, foram 353 agências. São muitas agências fechadas, principalmente onde mais precisa. Ou seja, nas periferias. Hoje tem bairros de São Paulo em que as pessoas têm que andar às vezes 10 quilômetros, pegar uma condução, para achar uma agência bancária”, afirma a coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Ivone Silva.
A dirigente sindical ressalta que os mais pobres e os idosos são os que mais sofrem com o fechamento das agências. Os primeiros, porque às vezes falta dinheiro para pagar a internet do celular, ou não têm um aparelho compatível com o aplicativo do banco. Já os aposentados, seja pela dificuldade com a tecnologia ou por hábito, querem acompanhar de perto, nas agências, a sua vida financeira.
“E muitas vezes eles chegam lá, e não tem ninguém para atendê-los. Antes não tinha mais o caixa físico. Hoje estão sumindo das agências até os caixas eletrônicos. Você chega na agência e a fila dos caixas eletrônicos é enorme. Um total desrespeito à população”, diz ela.
“Os bancos usam da concessão pública para selecionar o atendimento a quem tem poder aquisitivo maior, mas deveriam estar presentes em um número maior de locais e pensando em assistência à população. Essas instituições têm um número grande de agências rentáveis que compensam economicamente as agências menores e mais distantes, que os bancos não consideram lucrativas, mas que são justamente aquelas que a população de baixa renda necessita”, acrescenta o presidente do Sindicato dos Bancários de Catanduva e região, Roberto Vicentim.
Reclamações
Reportagem de Giuliana Saringer, no portal UOL, mostra que, somente neste ano o Procon-SP registrou 69 reclamações pela demora nas filas nas agências. Para efeito de comparação, em 2020, foram 24 reclamações, ainda que a ida aos bancos estivesse mais restrita, em função da gravidade da pandemia naquele momento. A publicação também traz depoimentos de clientes do Bradesco que relatam que passaram horas nas filas das agências, cheias por conta do fechamento de outras unidades próximas.
Demissões
Além da piora no atendimento, outra consequência do fechamento das agências é o aumento das demissões. O movimento sindical vem se mobilizando fortemente contra um processo de terceirização e demissões promovidas pelo Santander, por exemplo. Desde o início do ano, já são cerca de 200 demissões, sem reposição do quadro de funcionários. Na avaliação dos representantes dos trabalhadores, a terceirização é uma forma do banco reduzir despesas às custas dos direitos e da remuneração dos seus funcionários. É válido lembrar que o banco espanhol retira do Brasil quase 30% do seu lucro global.
“Não há outra explicação a não ser uma ganância pelos lucros e para isso, o corte de gastos”, protesta Vicentim. “Essa economia tem sido prejudicial à sociedade, tanto por restringir e dificultar o acesso da população aos serviços bancários como por demitir trabalhadores, aumentando o desemprego no Brasil e sobrecarregando os trabalhadores que ficam nas agências”, argumenta, destacando que o banco deveria cumprir seu papel social.
“Isso significa gerar empregos decentes, e não precarizar relações de trabalho e demitir trabalhadores, contribuindo para aumentar o já enorme índice de desemprego. Cobramos do banco o fim das demissões, a realocação dos trabalhadores impactados e que interrompa o processo de terceirização”.
Na semana passada, o movimento sindical também se reuniu com a direção do Itaú para tratar do fechamento das agências e da demissão indevida dos trabalhadores. Estão sendo demitidos principalmente trabalhadores com histórico de adoecimento e idade próxima aos 50 anos. O banco alega que a maior parte não teria cumprido as metas de desemprenho nos últimos anos, apesar dos lucros bilionários.
O presidente do Sindicato também rebate o argumento de que a digitalização é o futuro próximo dos serviços bancários, como as instituições têm anunciado em suas propagandas. “Todas as justificativas sobre a digitalização remetem à pandemia. Durante o período houve um incentivo à utilização porque as pessoas precisavam evitar aglomerações, sair de casa, mas mesmo assim, em qualquer agência, você vai encontrar uma fila de pessoas que precisam de atendimento, sobretudo nos bancos públicos”, explica.
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