22/07/2022
Comemorar o Julho das Pretas é questão de resistência
O Julho das Pretas é uma iniciativa em homenagem ao 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. A ONU reconhece a data desde 1992, quando ocorreu o 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe. No Brasil, a data foi aprovada em 2014.
“É uma data muito importante, primeiro porque nós, mulheres latino-americanas e caribenhas, nos conectamos umas com as outras. E podemos dar visibilidade às nossas pautas, políticas públicas que queremos para tirar nossas irmãs desse lugar subalterno que a sociedade insiste em colocar. Sabemos que as mulheres negras são as primeiras atingidas numa crise, numa recessão, são as primeiras a ocupar esse lugar de desemprego e também são as que ocupam esse imaginário de objetificação dos nossos corpos”, explicou a secretária de Assuntos da Mulher da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro do Nordeste (Fetrafi/NE), Cândida Chay.
Números da violência
O total de mulheres negras vítimas de homicídios subiu de 2.419, em 2009, para 2.468 em 2019, um crescimento de 2%. No mesmo período, o número de mulheres não negras assassinadas caiu 26,9%, passando de 1.636 para 1.196. Os dados são do Atlas da Violência, publicado pelo IPEA em 2021. “Por isso que o 25 de Julho é tão importante, para que a gente possa debater sobre o espaço do negro no país e avançar na conscientização, para uma sociedade antirracista e que nos permita viver e viver com pleno acesso à felicidade e à dignidade, como diz a Constituição”, pontuou Chay.
O secretario de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Almir Aguiar, completou que a marcação de uma data tem função estratégica na “luta das mulheres pretas contra o preconceito, discriminação e todos os tipos de violência”, lembrando que, em 2021, o país registrou 1.319 casos de feminicídio, segundo relatório do Fórum de Segurança.
Desigualdade no setor bancário
“No setor bancário, a mulher preta representa somente 1,1% das que estão em cargos de liderança, a remuneração média das mulheres pretas bancárias é 59% da média de remuneração dos homens brancos. Isso precisa mudar, esse é um ano eleitoral, é fundamental elegermos mais mulheres pretas para o parlamento, empoderar para avançar”, prosseguiu o dirigente. Em termos de salário no setor bancário, enquanto um homem branco ganha, em média, R$ 10 mil, a mulher branca recebe R$ 7,8 mil e a mulher negra apenas R$ 5,9 mil, como mostra levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Tereza, a rainha
Tereza de Benguela viveu no século XVIII e foi casada com José Piolho, chefe do Quilombo Quariterê, localizado na divisa do Brasil com a Bolívia no atual estado do Mato Grosso. Com a morte do marido, ela passou a reinar a comunidade negra e indígena, resistindo à escravidão por duas décadas, até por volta de 1770, quando, após várias incursões, o quilombo foi destruído pelas forças da capitania mato-grossense.
“Estudar a história de Tereza de Benguela é muito importante para as mulheres negras contemporâneas e para as nossas crianças, principalmente quando a gente tem uma lei que garante o estudo da história africana, mas que não é respeitada”, observa Cândida Chay. “As meninas são fortalecidas com a história de uma negra que, no século XVIII, foi tratada como rainha, que estruturava o quilombo econômica e politicamente, ainda mais ao lembrarmos que a menina de hoje ainda carrega o peso de estar numa sociedade patriarcal que tenta limitar suas atuações e, enquanto menina negra, também é atingida pelo racismo”, avalia.
Tereza implantou novos modelos de produção, como o uso de ferro na agricultura. Na parte de defesa, ela liderou as ações contra os bandeirantes, como mostra artigo do portal Alma Preta, assinado por Pedro Borges: “O quilombo, território de difícil acesso, foi o ambiente perfeito para Tereza coordenar um forte aparato de defesa e articular um parlamento para decidir em grupo as ações da comunidade, que vivia do cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca, banana, e da venda dos excedentes produzidos”, escreveu ele.
Braços que construíram o país
“Nós precisamos trazer para essa discussão o reconhecimento de que foram nossos braços que construíram esse país, que estruturaram essa sociedade, que possibilitam que outras pessoas possam hoje lutar para ocupar outros espaços, na academia, nas diretorias de grandes empresas, na política, para que as nossas irmãs não sofram pela falta de acesso a políticas públicas que tragam dignidade, creche, mobilidade urbana. O mínimo para que a gente possa ter as mesmas oportunidades que a branquitude tem”, concluiu Chay.
Para o presidente do Sindicato dos Bancários de Catanduva e região, Roberto Vicentim, a luta contra o preconceito racial se torna ainda mais necessária no momento atual, no qual o país ainda sofre as consequências de uma pandemia e a população negra sofre com a escassez de recursos para a saúde. "Infelizmente, ainda vivemos retrocessos e falta de investimentos em políticas públicas para a redução das desigualdades que ameaçam a população negra. Estamos em pleno século XXI e não podemos mais permitir que as mulheres negras ainda sejam inferiorizadas pelo seu gênero e cor. Não podemos permitir que ainda tenhamos que conviver com o preconceito racial", ressaltou Vicentim.
Podcast
O Podcast Contraf-CUT desta segunda-feira (25) aborda o tema Julho das Pretas, com entrevistas da secretária de Assuntos da Mulher da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro do Nordeste (Fetrafi/NE), Cândida Chay, e da dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo (Seeb-SP) e bancária do Santander, Susana Malu Cordoba.
Os podcasts Contraf-CUT ficam disponíveis na plataforma SoundCloud.
“É uma data muito importante, primeiro porque nós, mulheres latino-americanas e caribenhas, nos conectamos umas com as outras. E podemos dar visibilidade às nossas pautas, políticas públicas que queremos para tirar nossas irmãs desse lugar subalterno que a sociedade insiste em colocar. Sabemos que as mulheres negras são as primeiras atingidas numa crise, numa recessão, são as primeiras a ocupar esse lugar de desemprego e também são as que ocupam esse imaginário de objetificação dos nossos corpos”, explicou a secretária de Assuntos da Mulher da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro do Nordeste (Fetrafi/NE), Cândida Chay.
Números da violência
O total de mulheres negras vítimas de homicídios subiu de 2.419, em 2009, para 2.468 em 2019, um crescimento de 2%. No mesmo período, o número de mulheres não negras assassinadas caiu 26,9%, passando de 1.636 para 1.196. Os dados são do Atlas da Violência, publicado pelo IPEA em 2021. “Por isso que o 25 de Julho é tão importante, para que a gente possa debater sobre o espaço do negro no país e avançar na conscientização, para uma sociedade antirracista e que nos permita viver e viver com pleno acesso à felicidade e à dignidade, como diz a Constituição”, pontuou Chay.
O secretario de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Almir Aguiar, completou que a marcação de uma data tem função estratégica na “luta das mulheres pretas contra o preconceito, discriminação e todos os tipos de violência”, lembrando que, em 2021, o país registrou 1.319 casos de feminicídio, segundo relatório do Fórum de Segurança.
Desigualdade no setor bancário
“No setor bancário, a mulher preta representa somente 1,1% das que estão em cargos de liderança, a remuneração média das mulheres pretas bancárias é 59% da média de remuneração dos homens brancos. Isso precisa mudar, esse é um ano eleitoral, é fundamental elegermos mais mulheres pretas para o parlamento, empoderar para avançar”, prosseguiu o dirigente. Em termos de salário no setor bancário, enquanto um homem branco ganha, em média, R$ 10 mil, a mulher branca recebe R$ 7,8 mil e a mulher negra apenas R$ 5,9 mil, como mostra levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Tereza, a rainha
Tereza de Benguela viveu no século XVIII e foi casada com José Piolho, chefe do Quilombo Quariterê, localizado na divisa do Brasil com a Bolívia no atual estado do Mato Grosso. Com a morte do marido, ela passou a reinar a comunidade negra e indígena, resistindo à escravidão por duas décadas, até por volta de 1770, quando, após várias incursões, o quilombo foi destruído pelas forças da capitania mato-grossense.
“Estudar a história de Tereza de Benguela é muito importante para as mulheres negras contemporâneas e para as nossas crianças, principalmente quando a gente tem uma lei que garante o estudo da história africana, mas que não é respeitada”, observa Cândida Chay. “As meninas são fortalecidas com a história de uma negra que, no século XVIII, foi tratada como rainha, que estruturava o quilombo econômica e politicamente, ainda mais ao lembrarmos que a menina de hoje ainda carrega o peso de estar numa sociedade patriarcal que tenta limitar suas atuações e, enquanto menina negra, também é atingida pelo racismo”, avalia.
Tereza implantou novos modelos de produção, como o uso de ferro na agricultura. Na parte de defesa, ela liderou as ações contra os bandeirantes, como mostra artigo do portal Alma Preta, assinado por Pedro Borges: “O quilombo, território de difícil acesso, foi o ambiente perfeito para Tereza coordenar um forte aparato de defesa e articular um parlamento para decidir em grupo as ações da comunidade, que vivia do cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca, banana, e da venda dos excedentes produzidos”, escreveu ele.
Braços que construíram o país
“Nós precisamos trazer para essa discussão o reconhecimento de que foram nossos braços que construíram esse país, que estruturaram essa sociedade, que possibilitam que outras pessoas possam hoje lutar para ocupar outros espaços, na academia, nas diretorias de grandes empresas, na política, para que as nossas irmãs não sofram pela falta de acesso a políticas públicas que tragam dignidade, creche, mobilidade urbana. O mínimo para que a gente possa ter as mesmas oportunidades que a branquitude tem”, concluiu Chay.
Para o presidente do Sindicato dos Bancários de Catanduva e região, Roberto Vicentim, a luta contra o preconceito racial se torna ainda mais necessária no momento atual, no qual o país ainda sofre as consequências de uma pandemia e a população negra sofre com a escassez de recursos para a saúde. "Infelizmente, ainda vivemos retrocessos e falta de investimentos em políticas públicas para a redução das desigualdades que ameaçam a população negra. Estamos em pleno século XXI e não podemos mais permitir que as mulheres negras ainda sejam inferiorizadas pelo seu gênero e cor. Não podemos permitir que ainda tenhamos que conviver com o preconceito racial", ressaltou Vicentim.
Podcast
O Podcast Contraf-CUT desta segunda-feira (25) aborda o tema Julho das Pretas, com entrevistas da secretária de Assuntos da Mulher da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro do Nordeste (Fetrafi/NE), Cândida Chay, e da dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo (Seeb-SP) e bancária do Santander, Susana Malu Cordoba.
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