17/08/2020
Na pandemia, sindicatos conseguem negociar acordos de trabalho com proteção do emprego

A crise econômica, aprofundada pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19), é a desculpa perfeita do governo de Jair Bolsonaro (ex-PSL) e de parte do empresariado para arrochar salários e usurpar direitos duramente conquistados com muita luta pelos trabalhadores e trabalhadoras.
Só as categorias mais organizadas, com sindicatos fortes e combativos, conseguem preservar empregos e direitos nas duras negociações salariais em épocas como a atual, mostra pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
O boletim “De olho nas negociações” do Dieese analisou 8.574 acordos negociados no primeiro semestre deste ano contra 8.827 no mesmo período do ano passado. Embora o aumento no número de acordos seja de apenas 3%, o que se nota é que em todas as cidades do país, sem exceção, houve algum tipo de negociação relacionada a Covid-19.
A pesquisa do Dieese mostra também que nas datas bases do primeiro semestre de 2020, o número de cláusulas relativas a reajustes salariais caiu em relação ao mesmo período do ano passado de 2.970 para 2.153 (- 27,50%). As maiores quedas foram registradas nos dois primeiros meses, após o início da pandemia. Em abril foi 41% menor e em maio 39%.
Segundo o técnico responsável pela pesquisa, Luís Ribeiro, embora tenha mudado o perfil de negociações, geralmente de reajustes salariais, para o de manutenção do emprego, o que se viu foi um “fenômeno nacional”, com os sindicatos se desdobrando, indo à luta, desafiando as dificuldades de realização de assembleias por causa da quarentena e das adversidades para conseguirem manter direitos.
“O próprio número no aumento de acordos, num momento em que o governo federal apresentou diversas medidas que não precisariam da atuação dos sindicatos mostra que os representantes dos trabalhadores foram além. Muitos conseguiram negociar tanto um período maior de estabilidade do emprego como uma melhoria no rendimento dos trabalhadores atingidos pela MP 936 de suspensão de contrato e redução de jornada e salários”, diz Ribeiro.
A luta dos sindicatos tem sido cada vez mais difícil, com as negociações entre empresas e trabalhadores demorando mais para chegarem a um acordo, afirma o diretor-técnico do Dieese, Fausto Augusto Júnior.
“O tempo médio de negociação era de um mês. Hoje têm categorias que estão lutando desde o mês de maio para conseguir impedir tanto a retirada de direitos, de pautas sociais como avançar nas questões salariais ”, diz.
Fausto ressalta que as maiores dificuldades têm sido sentidas por trabalhadores de empresas públicas como os Correios e a Petrobras que estão próximas da data-base.
“A maior dificuldade nas negociações das empresas públicas se deve a postura do atual governo [Jair Bolsonaro] de reduzir direitos a qualquer custo”, afirma o diretor-técnico do Dieese.
Confira como estão as negociações da categoria bancária:
Os representantes dos bancários, tanto dos bancos privados como públicos, conquistaram no início da pandemia, a interrupção das demissões nas instituições.
Houve uma redução de 58% dos desligamentos em abril e maio, em relação ao primeiro trimestre do ano, mas mesmo assim os bancos demitiram, principalmente o Santander que, no segundo trimestre deste ano, em plena pandemia, registrou o corte de 844 postos de trabalho.
Agora, a luta é garantir empregos, direitos s reajuste salarial na dura campanha da categoria.
“Nossa reivindicação é pela manutenção do emprego, aumento real e melhores condições de trabalho", diz Ivone Silva, uma das coordenadoras do Comando Nacional dos Bancários.
Bancos têm lucros bilionários
Apesar do lucro dos maiores bancos brasileiros (somente o primeiro trimestre de 2020 somou R$ 18 bilhões), entre janeiro de 2013 e dezembro de 2019 houve redução de 70 mil postos de trabalho no país. Os cinco principais bancos fecharam 11,5 mil postos de trabalho em apenas 12 meses (período entre o primeiro trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2020).
"Embora seja o setor mais rentável da economia, os bancos dão um péssimo exemplo para o país ao cortarem postos de trabalho", diz Ivone.
O Comando Nacional dos Bancários já realizou cinco rodadas de negociações virtuais sobre teletrabalho, emprego, saúde e condições de trabalho, igualdade e cláusulas sociais e econômicas.
A próximas rodada com tema a ser definido está marcada para o próximo dia 18 (terça) entre 11h e13h.
Nos dias 20, 21, 25, 26, 27 e 28 de agosto serão discutidos pontos pendentes das mesas anteriores.
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