21/08/2019
Ganância dos bancos: mesmo com Selic em 6%, taxa média do cheque especial é de 322%

O juro do cheque especial alcançou, em junho, seu maior nível em 25 anos. Segundo o último boletim divulgado pelo Banco Central, a média está em 322,23% ao ano. E isso se dá no mesmo período em que a taxa básica de juros, a Selic, chega ao menor patamar desde 1999: 6%.
O presidente do Sindicato dos Bancários de Catanduva e Região, Roberto Carlos Vicentim, denuncia que o Brasil continua sendo um dos países com os juros do cheque especial mais altos do mundo e que, enquanto as instituições financeiras têm cada vez mais poder, os consumidores fogem dos empréstimos, deixam de consumir e a economia fica estagnada.
"A especulação que se faz no mercado financeiro e as elevadas taxas travam os três motores da economia: consumo das famílias, investimento das empresas e do governo. Na teoria, a taxa básica de juros da economia deve servir de parâmetro para os bancos e operadoras de cartões definirem a política de juros. Ou seja, se a Selic cai, os índices do cartão deveriam reduzir automaticamente. Mas, os bancos ignoram. A cobrança é tão alta que chega a ser um crime contra os consumidores", ressalta Vicentim.
Juros altos são consequência do desmonte dos bancos públicos
Para a coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Ivone Silva, esse crescimento é mais uma mostra da ganância dos bancos, mas sobretudo demonstra a falta que fazem bancos públicos fortalecidos. "Desde o governo Temer, e agora sob o governo Bolsonaro, Caixa e BB estão sendo geridos para deixarem de cumprir seus papéis sociais e têm aumentado suas taxas de juros”, destaca.
Especialistas do mercado, ouvidos pelo Valor, reconhecem que os bancos privados devem ter aproveitado a nova política de aumentos de juros de BB e Caixa para também elevarem suas taxas.
Em 2013, as taxas do cheque especial na Caixa e no BB caíram a mínimas de 60,8% a.a. e 80,4% a.a., respectivamente. Desde a gestão Temer elas foram subindo e alcançaram, em junho (sexto mês do governo Bolsonaro), 298,9% a.a. na Caixa e a 298,5% a.a. no Banco do Brasil.
Os dados mostram que quem paga a conta do desmonte dos bancos públicos é a população. O endividamento das famílias chegou, em março deste ano, ao maior patamar desde setembro 2015, com 62,4% das famílias brasileiras com dívidas, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio. É por isso que a defesa dos bancos federais e dos direitos de seus trabalhadores é uma das principais bandeiras de luta do Sindicato.
“É um absurdo o que estão fazendo com os bancos públicos no Brasil. Caixa e BB estão sendo desmontados e fatiados para a venda, ao mesmo tempo em que adotam cada vez mais uma política de mercado, quando deveriam gerir políticas públicas e se contrapor à ganância das instituições financeiras privadas no Brasil, que praticam algumas das taxas de juros mais altas do mundo”, acrescenta a dirigente.
Segundo o Banco Mundial, no ano passado, o Brasil ocupava o segundo lugar no mundo em spread bancário (diferença entre o que o banco gasta para captar dinheiro no mercado e quanto ele ganha para emprestar o dinheiro). Com um spread de 32,2% ao ano, o Brasil perde apenas para Madagascar, que ocupa o primeiro lugar no ranking com 42,6% a.a. Para se ter uma ideia, o spread bancário é 3,3% a.a. na Austrália, e até mesmo em outros países da América Latina é muito menor que no Brasil: 4,8% a.a. no México, 5% na Bolívia e 7,4% na Colômbia.
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