23/05/2018
Sem os bancos públicos, desenvolvimento do país fica submetido a humores do 'mercado'

Debate discutiu o papel dos bancos públicos no desenvolvimento econômico e social do país
(Foto: Reprodução / Carta Capital)
O governo Temer, atendendo aos interesses do mercado financeiro, promove o desmonte dos bancos públicos com a venda fatiada de ativos da Caixa Econômica e do Banco do Brasil, além de promover a descapitalização do BNDES. Ao mesmo tempo, essas instituições "equalizam" suas taxas de juros e tarifas enxugando o crédito e abrindo espaço para os grandes bancos privados. O resultado é a falta de recursos para financiar o consumo das famílias, bem como o setor produtivo. Sem outro planejamento que não o próprio desmonte desses bancos, a economia nacional é deixada ao sabor das crises e dos humores dos especuladores.
Esses foram os principais apontamentos trazidos no debate Diálogos Capitais: Bancos públicos e o desenvolvimento econômico e social, realizado na terça-feira (22) em São Paulo, iniciativa da revista CartaCapital apoiada pela Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae).
Na palestra de abertura, o economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luiz Gonzaga Belluzzo lembrou que tanto a história recente do Brasil como a de países como Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha, ou ainda a China dos tempos atuais, mostram que não há conflito irreconciliável entre a ação do Estado e do capital privado para a promoção do desenvolvimento nacional.
Segundo Belluzzo, é papel do Estado – e dos bancos públicos – "gastar na frente", para assim criar o ambiente econômico propício ao investimento privado. Ele citou casos de empresas como a Eletrobras e a Telebras que, por meio de um plano de ação de longo prazo, alavancavam o crescimento dessas respectivas cadeias produtivas, contribuindo para o desenvolvimento de milhares de empresas.
O professor afirmou também que os bancos públicos – e as empresas públicas de maneira geral – têm papel fundamental porque podem agir com mais autonomia em relação aos ciclos econômicos. Em momentos de crise, enquanto o capital privado se retrai, essas instituições podem fazer ações que sirvam de "contraponto", expandindo o crédito e dissipando incertezas, como ensinava o célebre economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946). O que não vem sendo feito no Brasil hoje.
Desmonte
Representante dos funcionários da Caixa no Conselho de Administração da instituição, Rita Serrano disse que os bancos públicos vêm sendo fatiados pelo atual governo, com a venda de ativos para o capital privado. Enquanto o Banco do Brasil estuda vender a sua participação em operações com cartões de crédito e seguros, a CEF quer repassar suas loterias instantâneas.
Ela lembrou que a Caixa chegou a responder por até 70% do crédito imobiliário no país, contribuindo com a criação de emprego e renda. O programa Minha Casa Minha Vida, que chegou a contar com orçamento de cerca de R$ 20 bilhões em 2015, decaiu para R$ 7,7 bi dois anos depois, e continua sendo "enxugado".
Para além da importância nos investimentos diretos, Rita destacou o papel da Caixa no avanço da "bancarização". Segundo ela, foram criadas, nos últimos anos, cerca de 12 milhões de contas para quem não tinha acesso ao sistema bancário. Restam 30 milhões de pessoas ainda excluídas, que devem ter a sua situação prejudicada a partir do atual processo de "elitização" do sistema bancário, com o fechamento de agências da Caixa e do Banco do Brasil, e com a equiparação das tarifas com as dos bancos privados.
Seguir a lei
O professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Gilberto Bercovici lembrou que os bancos públicos e empresas estatais "não existem para dar lucro, mas para cumprir a sua função", definida por lei. "Não fazer isso não é só desmonte ou esvaziamento político, é descumprimento e violação da legislação vigente."
Ele também discordou da ideia liberal de que os bancos públicos tomariam espaço dos privados, causando danos à concorrência, e usou o mercado de capitais para ilustrar. Segundo ele, sem a participação do BNDESPar (que atua como sócio de empresas com capital aberto) e do Banco do Brasil, "não haveria mercado de capitais".
O debate de sempre
Pedro Celestino, integrante do Conselho Diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, lembrou que foi o planejamento estatal levado a cabo por diferentes governos – desde Getúlio Vargas aos presidentes militares, passando por Juscelino Kubitschek – que garantiu que o Brasil avançasse de uma economia primária exportadora para a industrialização.
Ele afirmou que os atuais dilemas econômicos do país remontam ao debate ocorrido na década de 1940 entre o líder industrial paulista Roberto Simonsen e o economista liberal carioca Eugênio Gudin. Para o primeiro, o Estado deveria intervir para criar as bases do desenvolvimento nacional, corrente vitoriosa nas décadas seguintes e que agora volta a perder espaço para aqueles que defendem que a ação do Estado mais atrapalha, como argumentava Gudin.
Sobre Temer, Celestino afirmou que "nunca tivemos governo tão descompromissado com o interesse nacional", e defendeu a convocação de plebiscito revogatório, pelo próximo presidente eleito, de todos os atos "antinacionais" cometidos desde 2016. "Só o povo poderá garantir a recuperação do que é nosso."
Esses foram os principais apontamentos trazidos no debate Diálogos Capitais: Bancos públicos e o desenvolvimento econômico e social, realizado na terça-feira (22) em São Paulo, iniciativa da revista CartaCapital apoiada pela Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae).
Na palestra de abertura, o economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luiz Gonzaga Belluzzo lembrou que tanto a história recente do Brasil como a de países como Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha, ou ainda a China dos tempos atuais, mostram que não há conflito irreconciliável entre a ação do Estado e do capital privado para a promoção do desenvolvimento nacional.
Segundo Belluzzo, é papel do Estado – e dos bancos públicos – "gastar na frente", para assim criar o ambiente econômico propício ao investimento privado. Ele citou casos de empresas como a Eletrobras e a Telebras que, por meio de um plano de ação de longo prazo, alavancavam o crescimento dessas respectivas cadeias produtivas, contribuindo para o desenvolvimento de milhares de empresas.
O professor afirmou também que os bancos públicos – e as empresas públicas de maneira geral – têm papel fundamental porque podem agir com mais autonomia em relação aos ciclos econômicos. Em momentos de crise, enquanto o capital privado se retrai, essas instituições podem fazer ações que sirvam de "contraponto", expandindo o crédito e dissipando incertezas, como ensinava o célebre economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946). O que não vem sendo feito no Brasil hoje.
Desmonte
Representante dos funcionários da Caixa no Conselho de Administração da instituição, Rita Serrano disse que os bancos públicos vêm sendo fatiados pelo atual governo, com a venda de ativos para o capital privado. Enquanto o Banco do Brasil estuda vender a sua participação em operações com cartões de crédito e seguros, a CEF quer repassar suas loterias instantâneas.
Ela lembrou que a Caixa chegou a responder por até 70% do crédito imobiliário no país, contribuindo com a criação de emprego e renda. O programa Minha Casa Minha Vida, que chegou a contar com orçamento de cerca de R$ 20 bilhões em 2015, decaiu para R$ 7,7 bi dois anos depois, e continua sendo "enxugado".
Para além da importância nos investimentos diretos, Rita destacou o papel da Caixa no avanço da "bancarização". Segundo ela, foram criadas, nos últimos anos, cerca de 12 milhões de contas para quem não tinha acesso ao sistema bancário. Restam 30 milhões de pessoas ainda excluídas, que devem ter a sua situação prejudicada a partir do atual processo de "elitização" do sistema bancário, com o fechamento de agências da Caixa e do Banco do Brasil, e com a equiparação das tarifas com as dos bancos privados.
Seguir a lei
O professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Gilberto Bercovici lembrou que os bancos públicos e empresas estatais "não existem para dar lucro, mas para cumprir a sua função", definida por lei. "Não fazer isso não é só desmonte ou esvaziamento político, é descumprimento e violação da legislação vigente."
Ele também discordou da ideia liberal de que os bancos públicos tomariam espaço dos privados, causando danos à concorrência, e usou o mercado de capitais para ilustrar. Segundo ele, sem a participação do BNDESPar (que atua como sócio de empresas com capital aberto) e do Banco do Brasil, "não haveria mercado de capitais".
O debate de sempre
Pedro Celestino, integrante do Conselho Diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, lembrou que foi o planejamento estatal levado a cabo por diferentes governos – desde Getúlio Vargas aos presidentes militares, passando por Juscelino Kubitschek – que garantiu que o Brasil avançasse de uma economia primária exportadora para a industrialização.
Ele afirmou que os atuais dilemas econômicos do país remontam ao debate ocorrido na década de 1940 entre o líder industrial paulista Roberto Simonsen e o economista liberal carioca Eugênio Gudin. Para o primeiro, o Estado deveria intervir para criar as bases do desenvolvimento nacional, corrente vitoriosa nas décadas seguintes e que agora volta a perder espaço para aqueles que defendem que a ação do Estado mais atrapalha, como argumentava Gudin.
Sobre Temer, Celestino afirmou que "nunca tivemos governo tão descompromissado com o interesse nacional", e defendeu a convocação de plebiscito revogatório, pelo próximo presidente eleito, de todos os atos "antinacionais" cometidos desde 2016. "Só o povo poderá garantir a recuperação do que é nosso."
SINDICALIZE-SE
MAIS NOTÍCIAS
- Caixa apresenta proposta final para o Saúde Caixa e negociações avançam em carreira e remuneração variável
- Banco do Brasil apresenta proposta para renovação do ACT específico
- Categoria garante aumento real, mantém direitos e alcança novas conquistas; Proposta será submetida às assembleias
- 28 de agosto marca trajetória de luta e conquistas dos bancários
- Comando Nacional derrota propostas de arrocho salarial
- Banco do Brasil apresenta avanços em negociação, mas funcionalismo cobra propostas financeiras
- Caixa lucra R$ 7,4 bilhões no semestre e movimento sindical cobra valorização dos empregados
- Caixa promete apresentar nova proposta para o Saúde Caixa nesta sexta-feira (28)
- Sindicato celebra bancários com sorteio de prêmios e reforça mobilização na Campanha Nacional
- Campanha Nacional: Sem aumento real não dá, Fenaban!
- Caixa não apresenta nova proposta para o Saúde Caixa
- Negociação com a Caixa: Saúde Caixa, carreira, condições de trabalho e contratações estão no centro da Campanha; veja resumo até aqui
- Negociação do Banco do Brasil segue sem avanço nas principais reivindicações
- Sete mesas, muitas cobranças e poucas respostas: relembre a negociação com o BB
- Banqueiros propõem reajuste de 62% da inflação, um dos piores de 2026. Comando rejeitou na mesa