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 02/09/2020

Setembro Amarelo: por que precisamos falar sobre suicídio?



Setembro é o mês mundial de prevenção ao suicídio, campanha mais conhecida como “Setembro Amarelo”. A ideia é conscientizar as pessoas sobre o assunto e entender as questões que geram sofrimento e doenças mentais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma pessoa comete suicídio a cada quatro segundos no mundo. Isso corresponde a 800 mil mortes por ano.

O Brasil está em 8º lugar entre os países do mundo com mais casos de suicídios. Para a OMS, 90% deles poderiam ter sido evitados.

Durante muito tempo o suicídio foi considerado um grande pecado, isso devido a crenças religiosas, morais ou culturais. E pode estar associado com a dificuldade que as pessoas sentem em falar abertamente sobre o assunto, com medo ou vergonha de serem julgados. 

Saúde mental dos Bancários 

De 2009 a 2017, a quantidade de bancários afastados por transtornos mentais cresceu 61,5%, de acordo com dados obtidos no INSS. Porém esse número deve ser ainda mais alarmante, já que nem todos os empregados conseguem o benefício da Previdência ou procuram seus direitos. 

Transtornos mentais e, por consequência, suicídios, aumentaram exponencialmente no Brasil e no mundo. Em períodos de crise como a que estamos vivendo no país, com agravamento pela pandemia de Covid- 19 e graças à política econômica e social do atual governo, esses casos se tornam ainda mais comuns. Trabalhadores de bancos públicos e privados, com metas cada vez mais inalcançáveis, incertezas em reestruturações não transparentes, assédio moral, sobrecarga de trabalho e a preocupação com ameaças de demissões em massa, adoecem cada vez mais.

"Reduzir o suicídio é um desafio coletivo que precisa ser colocado em debate. Os bancos também precisam implementar uma política séria de saúde do trabalhador, em especial com relação à saúde mental. Essa é uma das reivindicações do Sindicato, que permanece lutando por melhores condições de trabalho e consequentemente pela saúde física, psíquica e emocional da categoria. São milhares de pessoas que estão adoecendo e as instituições financeiras negligenciam isso. A situação é real, comprovada pelas pesquisas", ressalta o presidente do Sindicato dos Bancários de Catanduva e Região, Roberto Carlos Vicentim.

Pandemia do coronavírus

A campanha deste ano leva em consideração também a pandemia do novo coronavírus. Segundo pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tanto a quarentena quanto o medo de uma nova enfermidade impactam diretamente na saúde mental das pessoas. Então como falar sobre prevenção do suicídio agora?

Essa foi uma das preocupações do CVV (Centro de Valorização da Vida) para lançar a campanha “setembro amarelo” deste ano. A associação civil sem fins lucrativos, reconhecida como de Utilidade Pública Federal, decidiu destacar a importância do autocuidado e da empatia.

A campanha foi reforçada no vídeo “Pessoas precisam de pessoas”, publicado no canal do CVV no YouTube no dia 28 de agosto.
 


Como perceber comportamentos suicidas?

Por muitos anos, falar sobre suicídio foi um tabu. Mas a abordagem do problema está mudando. “O silêncio é o que mata”, afirma a psiquiatra e psicoterapeuta Stella Mara Suman Piasentim. “É importante reconhecer quando a pessoa precisa de ajuda”.

Ela diz que o suicídio surge como uma (falsa) solução asfixiante de viver. Mas antes disso, explica, existe a “ideia suicida”.  E este ponto é o que mais requer atenção.

“Cada um tem um jeito de sofrer, pois é difícil prever quem vai tentar suicídio, como ou em que momento, mas existem algumas recorrências: 90% sofriam de problemas mentais; 50% já haviam tentado tirar a vida em algum momento; muitos tinham parentes em primeiro grau que se suicidaram. São pontos relevantes, mas basta estar vivo para ser um fator de risco”, diz Piasentim.

Devemos ficar alertas a alguns sinais: isolamento, infelicidade e esgotamento

Como ajudar?

“Precisamos escutar, deixar a pessoa falar com calma, sem julgar. Se interessar pelo impacto que está acontecendo com essa pessoa e ter empatia. Isso vai fazer ela gastar os sentimentos. Depois disso, levá-la até um profissional”, explica Piasentim.

As pessoas também devem evitar algumas abordagens. “Não fale que a vida vale a pena, que a vida é bonita, que há sentido em tudo ou que a pessoa não tem fé. Isso não vai ajudar. Não estimule a se distrair ou ocupar a cabeça. Isso acaba inviabilizando o sofrimento”, diz ela. “Cada um sofre de um jeito, então é a própria pessoa que tem que reconhecer o que ela está falando e que tem que buscar suas próprias vias para resolver. Apenas escute”.

Idosos são os mais atingidos

Os últimos dados divulgados pelo Ministério da Saúde, referentes a 2017, indicam que os idosos com mais de 70 anos lideram o ranking de suicídio no País – são quase 9 casos a cada 100 mil habitantes. O abandono ao fim da vida é uma das principais causas.

O geriatra do Hospital das Clínicas, Milton Crenitte, explica que, além do abandono, o fato dessas pessoas viverem em uma sociedade capitalista pode aumentar as chances do suicídio: “Vivemos em uma sociedade que valoriza as pessoas baseada no que ela produz de capital. A partir do momento que vem a aposentadoria, essa pessoa perde o senso de utilidade”.

O geriatra diz que é mais difícil detectar sinais de comportamento suicida em idosos porque a mudança de comportamento é tida pelas pessoas como “natural”. “Se não está querendo comer, se recusa remédios, tem sono e humor alterados, isso pode indicar uma ideia suicida”, alerta o médico.

E na pandemia esse quadro só tende a piorar. Os idosos, por serem grupo de risco para a Covid-19, estão lidando com o constante medo da morte. “Eles estão perdendo a independência, autonomia e a participação social, tudo que a OMS indica como um envelhecimento ativo”, diz Crenitte. “O governo só piorou este cenário. Esse discurso de ‘só vai morrer velho’ causou um impacto muito grande nos idosos, que se sentem vulneráveis”.

Como podemos ajudá-los neste momento? Segundo o geriatra, ouvindo. “Não podemos tratá-los como problemas, e sim como parte da solução, inclusive como eles vão exercer o isolamento social. Não podemos impor ordens. Nunca silenciar e menosprezar o sofrimento de um idoso”, completa.

O suicídio em grupos minoritários

Além dos idosos, os grupos que são considerados pela sociedade como “minoritários” também acabam se tornando mais vulneráveis às doenças mentais e ao suicídio. LGBTs, negros, mulheres, indígenas, pessoas com deficiências, entre outros, acabam sofrendo estresse crônico – uma reação a preconceito, estigmas e violências.

É o que explica o psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, Bruno Branquinho: “Cada grupo tem suas particularidades, mas, quando pensamos de forma geral, são os que mais são estigmatizados pela sociedade, e isso reflete na saúde mental”.

Branquinho atende na ONG Casa 1, que acolhe LGBTs expulsos de suas casas. Ele diz que esse estresse crônico piorou durante a pandemia do coronavírus. Mas, segundo ele, há estudos mostrando que o apoio do próprio grupo pode ser protetivo para a saúde mental de uma pessoa e diminuir o risco de suicídio.

“O papel da política e dos governantes também deve ser levado em conta. Atualmente, no Brasil, o que vemos é um governo que não só não cria ou se preocupa com políticas públicas visando o bem-estar e a segurança dos grupos minoritários, mas também reproduz um discurso violento e normatizador”, afirma.

Onde procurar ajuda?

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece um serviço online de escuta, via chat ou telefone, 24 horas por dia. Basta ligar 188 ou acessar o site www.cvv.org.br



Fonte: Fontes: Carta Capital e CVV, com edição de Seeb Catanduva
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