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 25/03/2020

Irresponsabilidade de Bolsonaro perante coronavírus desagrada o Brasil e o mundo




O presidente Jair Bolsonaro reafirmou, na manhã desta quarta-feira (25), na saída do Palácio da Alvorada, o seu pronunciamento feito na noite anterior e disse que vai mudar a estratégia de combate ao coronavírus, dizendo que vai falar para o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para adotar o chamado “isolamento vertical”, que atinge apenas idosos e grupos de risco. A estratégia é criticada por organismos de saúde internacionais e chegou a ser adotada no Reino Unido, que voltou atrás e agora faz o isolamento social.

O presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em cadeia nacional, na noite de terça-feira (24), minimizando o surto do novo coronavírus, atacando os meios de comunicação e governadores e repetindo que há uma “histeria” em torno de uma “gripezinha”.

Para Bolsonaro, os meios de comunicação “espalharam a sensação de pavor” no Brasil e promoveram o que ele chamou de “histeria” no país. O presidente mais uma vez minimizou a doença que já matou mais de 16 mil pessoas nos últimos três meses.

Bolsonaro também responsabilizou prefeitos e governadores – citando nominalmente João Dória (PSDB), de São Paulo, e Wilson Witzel (PSC), do Rio – por criarem “histeria e pânico” para que possam surgir como “salvadores da pátria”.

O presidente ainda criticou aqueles que, segundo ele, priorizam a vida em detrimento à economia. “Aqueles que falam: ah, economia é menos importante que a vida. Cara-pálida: não dissocie uma coisa de outra. Sem dinheiro, o próprio campo vai deixar de produzir. Vamos viver do quê?”, indagou.

Para o secretágio geral do Sindicato dos Bancários de Catanduva e Região, Júlio César Trigo, é irresponsável e inadimissível esse tipo de postura partir de um chefe de governo, que deveria ter como uma de suas principais atribuições zelar pelo bem estar de todo um país. "Sua declaração deixa visível o quanto o setor patronal possui mais importância que a vida de milhões de trabalhadores brasileiros. Trata-se de um governo que preza pelo lucro em detrimemento da saúde da maioria da população. Os prejuízos econômicos poderão ser revertidos. A vida das pessoas tem que vir em primeiro lugar!”, defendeu Trigo. 

Repercussão no Brasil e no Mundo

No horário do pronunciamento do presidente, às 20h30, novos panelaços de rechaço ocorreram em diversas cidades do país. É o oitavo dia consecutivo de protestos motivados, sobretudo, pela postura de Bolsonaro frente à crise social e de saúde pública provocada pela pandemia do novo coronavírus. Mas, não parou por aí, logo depois da fala do presidente, a repercussão foi imediata pelo Brasil e pelo mundo.

Em resposta, governadores, líderes de partidos no Congresso Nacional e os presidentes das casas legislativas criticaram o posicionamento do presidente e o tom de impeachment começa a ganhar força entre diferentes espectros políticos.

O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM-AP) foi um dos primeiros a se manifestar publicamente após o pronunciamento. Em nota assinada junto com o vice-presidente do Senado Federal, Antonio Anastasia (PSD-MG), classificaram como “grave” a fala do presidente da República e afirmaram que o país precisa “de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população”.

“Reafirmamos e insistimos: não é momento de ataque à imprensa e a outros gestores públicos. É momento de união, de serenidade e equilíbrio, de ouvir os técnicos e profissionais da área para que sejam adotadas as precauções e cautelas necessárias para o controle da situação, antes que seja tarde demais”, declaram Alcolumbre e Anastasia.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), parabenizou o posicionamento de Alcolumbre e afirmou nas redes sociais que o “pronunciamento do presidente foi equivocado ao atacar a imprensa, os governadores e especialistas em saúde pública” e avisou que desde o início da crise “vem pedindo sensatez, equilíbrio e união”.

“O momento exige que o governo federal reconheça o esforço de todos – governadores, prefeitos e profissionais de saúde – e adote medidas objetivas de apoio emergencial para conter o vírus e aos empresários e empregados prejudicados pelo isolamento social”, afirmou Maia.

Os secretários de Saúde da região Nordeste disseram que o pronunciamento voltou a minimizar a gravidade do coronavírus e da COVID-19, os deixou “estarrecidos”. Em nota, eles afirmaram que o presidente, ao comparar a infecção a uma “gripezinha” ou “resfriadinho”, “desfaz todo o esforço e nega todas as recomendações para combate à pandemia do coronavírus”.

Já os secretários estaduais de Educação decidiram ignorar o presidente Jair Bolsonaro e manter as escolas fechadas. Em nota, o Conselho Nacional de Secretários de Educação informou que continuará alinhado as determinações dos governadores, que seguem orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das principais autoridades médicas e científicas nacionais e internacionais.

Internacional

Duas horas depois do pronunciamento, a embaixada dos Estados Unidos divulgou comunicado orientando seus cidadãos a deixar o Brasil o mais rapidamente possível. O texto relaciona uma lista de voos saindo do Brasil nos próximos dias e alerta que esse número tende a diminuir, antecipando uma piora da situação brasileira.

Jornais europeus que acompanharam o discurso de Jair Bolsonaro minimizando o coronavírus destacaram nesta quarta-feira (25) que presidente fez declarações “contraditórias” e “inacreditáveis”. Parte da imprensa também comentou sobre os panelaços contra o presidente brasileiro após o pronunciamento.

O jornal francês Le Monde, por exemplo, disse que Bolsonaro “minimiza os riscos relacionados à pandemia da COVID-19 ao criticar as medidas tomadas em diversas cidades e estados do país, em um momento que um terço da população mundial é colocada em confinamento”.

O britânico The Guardian destacou que Bolsonaro disse que, por seu passado como atleta, “nada sentiria” se fosse contaminado pelo vírus. A reportagem disse que declarações do presidente são “incendiárias” e que o discurso gerou panelaços em diversas cidades do país.

Já o jornal espanhol El País acusou Bolsonaro de ser “o pior caso” entre os presidentes da América Latina a lidar com a pandemia. Para o jornal, o ex-capitão está mais preocupado com a briga política entre governadores do que com os riscos da pandemia.

Especialistas também criticaram

Para o diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Fausto Augusto Junior, o presidente deixou explícito que a principal preocupação deste governo é a manutenção do lucro das empresas, e não a saúde da população. Essa intenção não é manifestada apenas no discurso, mas também em decisões, como no caso da Medida Provisória (MP) 927, publicada no último domingo (22), que desprotege ainda mais os trabalhadores em meio à pandemia do coronavírus.

Segundo Fausto, não há contradição entre a preservação da vida das pessoas e das empresas, pois não é possível pensar que as últimas vão funcionar normalmente se os trabalhadores estiverem em risco. “Não existe contradição. Se as pessoas sobreviverem, as empresas também sobreviverão. O problema é que o governo só ouve os empresários, um determinado perfil de empresários, e acaba refletindo essa percepção de que é preciso ‘salvar a economia’”, afirmou ao jornalista Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta quarta-feira (25).

Já entidades de saúde coletiva e da bioética consideram intolerável e irresponsável o “discurso da morte” feito por Bolsonaro.

“Nesse ato, desrespeita o excelente trabalho da imprensa e de numerosas redes de difusão de conhecimento, essenciais para o esclarecimento geral sobre a COVID-19, e desmobiliza a população a dar seguimento às medidas fundamentais de contenção para evitar mortes, medidas estas cruciais encaminhadas com muito esforço pelas autoridades municipais e estaduais, implementadas por técnicos e profissionais do SUS, os quais vêm expondo suas vidas para salvar pessoas. Além disso, Bolsonaro comete o crime de ‘infração de medida sanitária preventiva’, a ser enquadrado no Art. 268 do Código Penal Brasileiro, ao desrespeitar ‘determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa’”, diz nota divulgada pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

“Nossas entidades, representativas da comunidade brasileira de sanitaristas, epidemiologistas, planejadores e gestores de saúde, cientistas sociais e outros profissionais da área de saúde pública, vêm a público denunciar os efeitos nocivos das posições do presidente da República sobre a grave situação epidemiológica que estamos vivendo. Seu pronunciamento perverso pode resultar em mais sofrimento e mortes na já tão sofrida população brasileira, particularmente entre os segmentos vulneráveis da sociedade”, afirma outro trecho.



Fonte: Contraf-CUT
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