ARTIGOS
 04/05/2020

"Com a pandemia, vimos a importância de ter um sindicato representativo", diz Ivone Silva



Diante do cenário atual de isolamento social e expansão dos casos de coronavírus pelo país, é do movimento sindical dos bancários que vem uma das principais vozes de resistência no que se refere à preservação dos direitos trabalhistas em meio à crise. Nesse panorama, a implementação de medidas de preservação da saúde de funcionários e clientes de bancos surge como ponto de realce na luta do segmento.

Em conversa com Brasil de Fato, a coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Ivone Silva, destaca luta pela preservação da saúde e dos direitos trabalhistas (Ivone também conversou com a TVT; partes da entrevista podem ser conferidas abaixo). Acompanhe:
 
Brasil de Fato - Há mais de 200 mil bancários fazendo home office atualmente. Vocês, inclusive, têm travado uma luta pra proteger a saúde dos trabalhadores e clientes. Você poderia expor aqui um resumo do que o movimento sindical tem feito com relação a isso? 

Ivone Silva - Primeiro, queria dizer que nossa negociação é nacional. Então, na parte dos trabalhadores, estão todos os bancários do país, os que negociam, e, da parte dos banqueiros, estão na mesa todos os bancos, que são filiados à Fenaban. A partir do momento em que soubemos do primeiro caso oficial de coronavírus, já procuramos a Fenaban pra tomar algumas medidas, e as primeiras foram que as pessoas que estavam voltando de viagem ficassem em quarentena, que os bancos reforçassem a questão da limpeza das agências, e fomos fazendo essa negociação. Após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar a pandemia, nós levamos um rol de pedidos maiores, que incluiu, primeiro, o [fato de] o pessoal do grupo de risco estar em home office, a questão também de você ter a estabilidade, de não ser demitido neste período, a questão da limpeza, de ter equipamentos de proteção individual – que, neste momento, seriam álcool em gel, máscaras, etc. Todos esses pedidos foram atendidos e também nós criamos uma mesa de crise bipartite, em que todos os problemas que foram surgindo nós fomos tratando. Então, hoje, estamos com várias agências fechadas porque tem rodízio de funcionários, nós estamos também com mais de 230 bancários em casa, o que dá mais de 50% da categoria, e o grupo de risco já estava em casa desde quando foi decretada a pandemia. Esses trabalhadores estão em casa, recebendo seus salários, e não têm diminuição nem de jornada nem de salários, além do compromisso de que eles não vão ser demitidos depois da pandemia. Então, realmente nós conseguimos uma boa negociação em relação a todos os trabalhadores.

BdF- Houve algum desses pontos que vocês tiveram mais dificuldade de emplacar junto às empresas ou talvez algum que não tenha sido atendido?

Acho que uma das maiores dificuldades desde o inicio são as filas porque, primeiro, nós pedimos que os bancos começassem a atender só serviços essenciais nas agências. Sabemos que alguns bancos não têm feito isso, mas a maioria cumpre. E, segundo, é a questão de mudar os hábitos. Não era só mudar hábito dos funcionários. Têm os hábitos dos clientes, que, muitas vezes, não respeitam a faixa, porque nós começamos a delimitar que todas as agências tenham a distância de 1 metro de uma pessoa pra outra, mas, mesmo assim, nós tivemos problema na questão do autoatendimento, que era não colocar bancário no autoatendimento, se expondo, e alguns bancos ainda colocam isso, mas agora eles usam máscaras que cobrem o rosto inteiro. Também tivemos uma dificuldade no início, que foi nós conseguirmos mudar o layout das agências, porque em muitas o layout era muito aberto, não havia barreiras pra proteger o bancário. E hoje nós já temos isso, já temos um acrílico em praticamente todas elas. E também foi [difícil], no início, você ter equipamento para todo mundo no home office. Imagine que hoje já estamos, eu acho, com 260 mil trabalhadores em casa e todos eles têm equipamento e têm internet. Então, o início foi muito tumultuado, mas acho que hoje nós já conseguimos resolver boa parte dos nossos problemas.   

BdF- Já existem muitos casos de covid-19 entre a categoria? Vocês estão fazendo esse acompanhamento? 

Nós fazemos acompanhamento, sim, por meio de um coletivo de crise. Tem, sim, casos suspeitos e, quando isso ocorre, essas pessoas são afastadas da agência, os colegas que estavam com eles entram em quarentena. Devido a isso, o número de casos na categoria, se você comparar em relação à população, é ínfimo, porque desde o início conseguimos essa negociação para preservar a vida e a saúde desses bancários. E também o número de mortes, até agora, não chega a dez na categoria toda, no Brasil todo, e nós estamos falando de mais de 500 mil bancários. Infelizmente, estamos falando de uma perda enorme, mas o número é bem menor que o da população.

E aí eu ressalto a importância do movimento sindical nisso, porque mais vidas não foram perdidas porque havia um movimento que estava negociando isso. Infelizmente, vemos várias categorias que não conseguem isso, e não é nem por causa do sindicato, e sim porque os sindicatos sofreram ataque do governo [de Michel] Temer [MDB] e agora deste [de Jair Bolsonaro, sem partido] também, que quer desmontar o movimento sindical. É ataque em relação a tirar financiamento, desorganizar os sindicatos, etc. E agora nós percebemos, diante dessa pandemia, o quão importante é você ter um sindicato pra te defender.

BdF - Você falou que os bancários que pertencem a grupos de riscos foram isolados já há mais tempo. Os bancos têm garantido algum tipo de assistência pra esses funcionários em particular?

A maioria dos bancos começou a implementar a telemedicina e, se tem casos [registrados], por exemplo, essas pessoas dos grupos de risco já foram pra casa bem antes, então, não ficaram expostas a isso. A maioria dos bancos tem telemedicina, e os funcionários que tiveram contato com o vírus ou que contraíram o vírus ou tiveram sintomas leves também tiveram acompanhamento. Então, tem essa área de telemedicina.

BdF - Você mencionou aqui que vocês conseguiram fazer um acordo para frear as demissões nas agências durante a pandemia. Quais os termos desse acordo? Até quando isso vale? As projeções em relação à pandemia são muito elásticas naquilo que se refere ao cronograma do problema?  

Até o final da pandemia todo mundo tem o seu trabalho garantido sem nenhuma demissão ou redução de salário. No dia 27 de abril, nós voltamos a negociar e agora a gente conseguiu arrancar da negociação que ninguém volta antes de ter negociações também, porque qual é a grande preocupação agora? É que começa a ter uma pressão no sentido de voltar por causa da economia, colocando como se a vida fosse menos importante do que a economia ou vice-versa. Nós, bancários, começamos a ter medo disso e negociamos junto à Fenaban que a volta, assim como a saída dos bancários, será negociada. E, pra nós, o negociado é conforme as orientações médicas, e não as orientações de alguns governadores ou mesmo do presidente, que despreza vidas.  

BdF - Ia, inclusive, pedir pra você comentar essa postura do presidente de priorizar a saúde econômica em detrimento da saúde das pessoas. Vocês que atuam como bancários lidam muito com os temas que dizem respeito à economia.

Primeiro, eu acho que tem uma falsa polêmica. A gente já fez muito esse debate no movimento sindical, porque não tem um estado de você escolher entre a vida e a economia. O Estado é obrigado a te dar os dois. Você tem que ter a sua vida preservada e, se, pra isso, é necessário ficar em casa, é necessário que o Estado te banque de alguma forma. Então, o Estado tem que ter políticas públicas, e por isso que a renda mínima é importantíssima neste momento. O [ministro da Economia, Paulo] Guedes e o presidente queriam uma de R$ 200, mas todo o movimento sindical e os partidos de esquerda conseguiram aumentar pra R$ 600, que nem é suficiente ainda. E, hoje, tem um grande problema, que é o fato de essa renda mínima ter atingido em torno de 40 milhões de trabalhadores, mas estão ficando mais de 40 milhões de trabalhadores fora disso porque eles resolvem que a economia é mais importante que a vida. Não vai existir uma economia pós-pandemia se as vidas não tiverem preservadas, então, não tem que ter isso de colocar uma coisa contra a outra. Isso tem que ser bancado.

BdF - Vocês têm visto muitas pessoas ainda com dificuldade de acessar a renda mínima nos bancos? Como está isso? 

Sim, muita dificuldade. E temos que lembrar que a Caixa Econômica é pagadora, e o Estado é que definiu as regras de pagamento, e essas regras retiram muita gente do pagamento da renda mínima. Só que essas pessoas não têm um órgão do Estado para ir reclamar. O único lugar que eles veem que ainda podem ir é a Caixa Econômica, então as filas enormes que nós vemos lá são de pessoas que vão perguntar por que foi indeferido seu benefício, coisa que o governo deveria já dizer, porque a Caixa não tem nem acesso a isso. Ela é pagadora, e as pessoas estão usando um aplicativo da Caixa pra facilitar o pagamento, mas todos os dados cruzados são do governo e o governo tem dificultado ao máximo o recebimento do benefício. Então, aqui, aproveito pra falar pras pessoas que o governo abriu uma brecha em que você pode ir lá de novo fazer o pedido do benefício e queria dizer aqui que os funcionários da Caixa não têm como resolver esse tipo de problema. O que está acontecendo é que as pessoas estão ficando mais expostas [ao coronavírus] e frustradas porque os funcionários da Caixa não têm como resolver esse problema. Isso é outra briga do movimento sindical junto ao governo, inclusive pra que se incluam mais pessoas no benefício, pra que elas possam ficar em casa com dinheiro pra poder comer e preservar a vida. Com isso, a economia também vai girar porque as pessoas vão comprar.        
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