ARTIGOS
 10/05/2016

A ingovernabilidade do golpismo de Temer

*Por Emir Sader

As ditaduras impõem sua governabilidade pela força. As democracias, pela legitimidade do voto popular. Temer não dispõe nem de uma, nem de outra. 
 
Um outro vice, Itamar, gozava da popularidade advinda do movimento de derrubada do Collor, que foi um consenso nacional. Ainda assim buscou no Plano Real de FHC o elemento que deu sentido a seu governo.
 
Temer não dispõe disso. O movimento contra o golpe quebrou qualquer possibilidade de consenso nacional que ele pudesse herdar. E o elemento de força de que dispunha – a máquina montada por Eduardo Cunha na Câmara – está abalada.
 
Originalmente seu discurso era o de que ele recomporia a unidade nacional afetada por um governo enfraquecido e que tinha perdido o diálogo com setores importantes da governabilidade, especialmente os empresários. Esse argumento se esvaiu. O isolamento de Temer é evidente. Só mantem dialogo com economistas neoliberais e os setores políticos mais próximos, os com imagem mais desgastada do Brasil. Não ha nada em Temer que possibilite ele manter o discurso de reunificação da nação.
 
Tampouco o discurso contra a corrupção, porque diante da ausência de qualquer acusação contra Dilma, Temer e o seu grupo acumulam quantidade de processos por corrupção, a começar por Eduardo Cunha.
 
Temer não dispõe assim das mínimas condições de governabilidade. Sem legitimidade pessoal como vice-presidente que conspirou contra a presidenta, sem votos próprios, sem mandato para buscar dirigir o pais na direção exatamente oposta àquela da chapa pela qual foi eleito e com os adversários dessa chapa nas eleições de 2014.
 
Além disso, prepara um programa de governo derrotado nas ultimas quatro eleições e com uma equipe de derrotados eleitoralmente. Sem discurso que o legitime diante do País e cercado por um movimento popular que tende a atualizar sua rejeição pela campanha por novas eleições presidenciais, Temer é a cara mesma da ingovernabilidade.
 
O aventureirismo em que se lança Temer so pode ser entendido porque ele terminaria seu mandato no completo anonimato e assediado pelas acusações da Lava Jato. Se aventura assim a um projeto de desmontar parte importante do que foi conquistado no plano econômico e social, como favor às elites dominantes, reiteradamente derrotadas nas eleições presidenciais.
 
Temer nunca exerceu a direção de um governo, seja ele municipal, estadual e menos ainda nacional. É um vice decorativo, como ele mesmo disse. Não tem autoridade política, nem proposta própria alguma, menos ainda qualquer capacidade de direção política. Justamente porque é um nada, uma nulidade, se prestou sempre a papéis muito diversos, nenhum deles com consistência própria.
 
Como já se afirmou, seria o presidente mais medíocre, mais sem identidade própria, mais disponível para ser um boneco nas mãos de interesses poderosos que se valeriam dele para se reapropriar do governo e recuperar posições perdidas nas eleições,  em que o povo preferiu sempre o modelo de desenvolvimento econômico com distribuição de renda.
 
Com um Congresso fraco e fragmentado, com uma equipe muito vulnerável às acusações de corrupção, com um programa fortemente antipopular, com um movimento popular mobilizado contra ele, com a opinião pública nacional e internacional condenando seu golpe, Temer tem todas as condições de sucumbir à ingovernabilidade,  ser prisioneiro da inércia e fracassar fragorosamente em prazo curto.
 
*Emir Sader é sociólogo e cientista político
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